O dilema do ovo e da galinha na mobilidade elétrica

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O dilema do ovo e da galinha na mobilidade elétrica

O que vem primeiro, o carro elétrico ou a infraestrutura de eletroabastecimento?

Responda rápido: você se lembra de ter visto um ponto de recarga de carro elétrico na sua cidade? Se a resposta for 'não', você faz parte de uma expressiva maioria. Mesmo assim, apesar de não ter contato com iniciativas deste universo, 82% da população declara que trocaria seu carro a combustão por um elétrico, a um valor justo, caso a sua cidade dispusesse de pontos de eletroabastecimento (EVC) suficientes.

Na realidade, o que se trata como dilema no Brasil, já foi respondido por diversos países em que a transição para frota elétrica está mais avançada: é necessário que demanda por carregamento e oferta de "eletropostos" caminhem juntos.

No final de 2019, havia ao redor do mundo cerca de 7 milhões de carregadores, 12% deles de acesso público. Considerando somente a infraestrutura de recarga pública, a China lidera, disparadamente, com 60% dos carregadores do mundo, em um mercado global que tem a previsão de crescer de U$ 4 bilhões para U$ 147 bilhões em 2030.

Como o exemplo chinês é um caso à parte, interessante discorrermos sobre os EUA que, mesmo após sua recente saída do Acordo de Paris, já vinha se preparando para reduzir a emissão de gases do efeito estufa. Pelas estimativas, são necessários cerca de 330.000 novos pontos de recarga nos EUA até 2025 para suprir uma frota de 14 milhões de novos veículos elétricos. Deste total, no final de maio de 2019, existiam 68.800 estações de recarga em operação nos EUA. Um longo caminho pela frente, que vem sendo liderado por alguns estados, como a Califórnia, que sozinha possui mais de 22 mil pontos de recarga.

Enquanto isso, no Brasil, apenas em 2018 foi regulamentada a cobrança de recarga para veículos elétricos (Resolução Normativa 819/2018 da Aneel). No curto prazo, contudo, ainda não é possível vislumbrar um modelo que permita a cobrança pelo uso da recarga elétrica.

As iniciativas nacionais contam principalmente com os recursos do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico do Setor de Energia Elétrica (P&D). Segundo regulamentos estabelecidos pela Aneel, as concessionárias de serviços públicos de distribuição, transmissão ou geração de energia elétrica, além de outras dentro de algumas especificidades, são levadas a aplicar anualmente um percentual mínimo, chegando a 1%, de sua receita operacional líquida em projetos de P&D.

Outros fatores importantes para acelerar a instalação da infraestrutura são as leis que obrigam determinados tipos de empreendimentos a ter pontos de eletroabastecimento, como nas cidades de Brasília e São Paulo, onde leis já foram aprovadas. Com isso, temos visto grandes varejistas e redes de shopping centers se movimentar cada vez mais. 

Nos EUA, por exemplo, o Walmart começou a oferecer carregadores em suas lojas em 2011, mesmo ano em que a Simon Property Group, maior rede de shoppings dos EUA, também iniciou sua oferta de eletroabastecimento. Hoje, a Simon conta com mais de 700 carregadores em suas propriedades.

Provavelmente os próprios varejistas e redes de shopping centers tornar-se-ão os grandes players desse negócio, aliados a empresas de energia e startups que ajudem a organizar a relação entre esses públicos de interesse.

Enquanto iniciativas privadas e/ou do governo não ocupam esse espaço, os esforços de instalação ocorrem de formas alternativas, como o caso recente em que a Associação Brasileira dos Veículos Elétricos Inovadores (Abravei) instalou seus próprios carregadores entre Brasília e Uberlândia, onde até então não havia nenhuma infraestrutura.

Durante a atual pandemia, o tema da mobilidade elétrica ganhou maior prioridade ao redor do mundo, com diversos países tomando medidas austeras para que essa transição aconteça rapidamente. A Alemanha é um bom exemplo. Além de investir 2,5 bilhões de euros, também obrigou postos de gasolina a oferecer eletroabastecimento, tudo com o objetivo de atingir o mercado de massa. Por aqui, é esperar o momento de volta às ruas, na expectativa de que governo, grandes empresas e startups deem a devida atenção às novas necessidades do povo, incluindo um formato muito mais sustentável de exercer seu direito de ir e vir. 


Davi Bertoncello, CEO da Tupinambá Energia.

Foto: Divulgação.

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