O seu escritório vale o deslocamento?

Gente volta por gente. Mas o ambiente precisa fazer essa presença valer a pena

O som de buzinas, motores e trânsito intenso abriu a palestra de Thais Trentin, fundadora e CEO da Workplace Arquitetura Corporativa, durante o Congresso ABRAFAC 2026. Antes mesmo da primeira palavra, o público foi convidado a reconhecer uma experiência comum: o deslocamento diário até o trabalho.

A provocação veio em seguida. Se tantas pessoas investem tempo e energia para chegar ao escritório, o que encontram ao atravessar a porta realmente compensa esse esforço?

Com quase trinta anos de experiência em arquitetura corporativa, Thais conduziu a reflexão para além dos projetos e instalações. O escritório precisa oferecer razões para a presença, e uma das mais importantes está nas relações humanas.

Ao abordar, com humor, o papel da fofoca na construção dos vínculos sociais, a palestrante trouxe pesquisas sobre convivência, comunicação e pertencimento. A mensagem era simples: gente volta por gente. Mas compartilhar um endereço não significa necessariamente estabelecer conexões.

Criar oportunidades de encontro, portanto, também faz parte da experiência que os ambientes devem proporcionar.

O espaço construído e o espaço vivido
Um dos conceitos apresentados foi a existência de duas camadas em todo escritório. A primeira é aquela que se constrói, formada por layout, instalações, acabamentos e mobiliário.

A segunda é a que se vive diariamente. Temperatura, ruído, acolhimento, qualidade do atendimento, convivência e possibilidades de pausa compõem aquilo que a palestrante chama de ambiência.

Essa dimensão está diretamente relacionada à atuação dos profissionais de Facilities, que conhecem a operação dos espaços e acompanham as necessidades de seus usuários.

A proposta é ampliar esse olhar, deixando de tratar o ambiente apenas como custo operacional para reconhecê-lo como ferramenta estratégica de saúde, cultura e desempenho.

Uma oportunidade que vem da economia wellness
O crescimento da economia global do wellness trouxe outra perspectiva à apresentação.

Segundo dados do Global Wellness Institute citados na palestra, o mercado imobiliário orientado ao bem-estar alcançou US$ 876 bilhões em 2025, com projeção de chegar a US$ 1,8 trilhão até 2030.

Consolidado em setores como hotelaria, residências, academias e resorts, esse mercado começa a ampliar sua presença nos ambientes corporativos.

Na América Latina, onde sua participação ainda é pequena, o crescimento representa uma oportunidade para empresas e profissionais que desejam antecipar tendências.

A reflexão apresentada foi que os escritórios podem aprender com setores que já compreenderam a importância do bem-estar na experiência das pessoas.

Foi a partir dessa leitura que a Workplace desenvolveu o Workplace Wellness, movimento pioneiro da empresa voltado à promoção da saúde, da cultura e do desenvolvimento humano por meio dos ambientes de trabalho.

A proposta não se limita à criação de novos espaços. Inclui reconhecer possibilidades existentes, ressignificar áreas subutilizadas e incorporar experiências que contribuam para uma rotina mais saudável.

Cinco pilares para transformar a experiência
O Workplace Wellness foi apresentado a partir de cinco pilares inspirados em práticas consolidadas de outros mercados.

O primeiro, regeneração, toma como referência as academias de alto padrão, que passaram a incorporar a recuperação à experiência de seus usuários.

Nos escritórios, esse conceito se traduz na criação de lugares para pequenas pausas ao longo do dia. Uma sala pouco utilizada pode receber iluminação acolhedora, uma poltrona e orientações para pausas guiadas de respiração, alongamento ou meditação.

O segundo pilar, sensorial, busca inspiração nos spas, onde iluminação, temperatura, sons, aromas e texturas são considerados elementos da experiência. A aplicação corporativa exige atenção ao conforto e às diferentes sensibilidades individuais.

A hospitalidade, terceiro pilar, vem da hotelaria. Seu princípio está no cuidado com as pessoas em diferentes momentos, desde a chegada ao escritório até o atendimento de uma solicitação.

Um chamado de manutenção, por exemplo, pode representar mais do que a solução de um problema. A qualidade da resposta também comunica atenção e acolhimento.

O quarto pilar é a comunidade, inspirado nos clubes, onde encontros acontecem por meio de programação e intenção. Pequenos eventos, atividades compartilhadas e rituais de convivência podem fortalecer relações e criar novos motivos para estar presencialmente.

Por fim, a natureza propõe ampliar a conexão com elementos naturais e a biofilia. Reposicionar plantas, valorizar a luz do dia ou transformar espaços residuais em áreas de pausa são possibilidades que nem sempre exigem intervenções complexas.

A pausa como parte da experiência de trabalho
Entre as reflexões apresentadas, a importância da pausa ganhou destaque.

Durante anos, os escritórios foram planejados principalmente para favorecer produtividade, eficiência e colaboração. O Workplace Wellness acrescenta a essa discussão a necessidade de oferecer condições para recuperação e autorregulação ao longo da jornada.

A proposta considera que pequenas mudanças podem produzir experiências significativas, muitas vezes utilizando mobiliário, áreas e recursos já disponíveis.

Nesse contexto, a atualização da NR-1, com a inclusão expressa dos fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais, reforça a importância de uma atuação integrada entre Facilities, Recursos Humanos e Segurança e Saúde do Trabalho.

Embora essas iniciativas não substituam as exigências legais, podem contribuir para estratégias mais amplas de melhoria das condições de trabalho e promoção do bem-estar.

Facilities como protagonista da transformação
A mensagem final da palestra foi direcionada aos profissionais de Facilities.

Por conhecerem profundamente os ambientes, seus usos e limitações, esses profissionais estão em uma posição privilegiada para identificar oportunidades e propor melhorias.

Mais do que executar demandas, podem assumir o protagonismo de um movimento que aproxima a gestão dos espaços das necessidades humanas.

O convite de Thais Trentin foi para que essa transformação comece dentro das próprias empresas, com escuta, observação e ações possíveis, sem necessariamente depender de novas obras ou investimentos.

O movimento Workplace Wellness propõe justamente essa mudança de perspectiva: compreender que o cuidado com as pessoas também se materializa nas decisões cotidianas sobre os ambientes.

O futuro do workplace precisa saber pausar.
E, como reforçou a palestrante, o ambiente devolve e precisa devolver presença.


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