
O Guiaderodas celebrou uma década de atuação reunindo executivos, especialistas e empresas comprometidas com a construção de ambientes mais acessíveis. Mais do que revisitar conquistas, o encontro projetou os desafios dos próximos dez anos e mostrou que a acessibilidade deixou de ser compreendida apenas como uma obrigação normativa para se tornar parte da experiência das pessoas, da estratégia das organizações e do valor dos ativos imobiliários. A programação também reconheceu empresas e profissionais envolvidos na implantação e na manutenção da Certificação Guiaderodas.
Na abertura do encontro, Daniela Aiach, diretora de Sustentabilidade da Amcham Brasil, apresentou a certificação como uma jornada contínua de diagnóstico, adequação e aprimoramento. O processo permite que os gestores acompanhem a evolução das ações por meio de um dashboard e recebam suporte técnico para superar barreiras, capacitar colaboradores e engajar as lideranças. Ao alcançar as metas estabelecidas, o local recebe a certificação e passa à etapa de manutenção e melhoria. Daniela ressaltou, contudo, que nenhuma transformação acontece apenas por meio de estruturas físicas, pois são as pessoas, suas atitudes e sua capacidade de acolher que tornam a acessibilidade verdadeiramente perceptível no dia a dia.
David Lederman, representante do Disney Institute Brasil, mostrou que experiências memoráveis não surgem por acaso, mas de processos cuidadosamente planejados. Segundo ele, a chamada “magia prática” da Disney está na capacidade de mapear a jornada do visitante, antecipar situações e preparar os colaboradores para agir com autonomia, empatia e atenção. Casos como a reposição imediata do sorvete derrubado por uma criança ou o acolhimento de quem ainda não tem altura para entrar em uma atração demonstram como pequenos gestos podem marcar uma família para sempre. Lederman também chamou a atenção para o conceito age-friendly, que considera fatores fisiológicos e cognitivos do envelhecimento na experiência do cliente. Para ele, ambientes acessíveis exigem mais do que instalações adequadas, eles dependem de profissionais recrutados e preparados para perceber o outro, pois uma porta acessível que permanece fechada continua sendo uma barreira.
Saulo Passos, Senior Communications Director Latin America da Uber, abordou a relação entre acessibilidade, mobilidade e liberdade. Ele destacou que transportar pessoas não significa apenas conduzi-las de um ponto a outro, mas ampliar autonomia, segurança e participação social. Recursos sonoros, possibilidade de ampliar fontes e outras funcionalidades da plataforma integram esse esforço de atender diferentes necessidades. Ao projetar os próximos dez anos, Passos apontou três tendências para a mobilidade: veículos elétricos, compartilhados e autônomos. Além dos ganhos ambientais e urbanos, essas tecnologias podem devolver independência a pessoas que não dirigem ou perderam essa possibilidade. O desafio, ponderou, será garantir que as inovações tenham custo acessível e sejam desenvolvidas para se adaptar às pessoas e não exigir que as pessoas se adaptem a elas.
No painel dedicado ao mercado imobiliário corporativo, Fernando Didziakas, CEO da Buildings, apresentou dados que evidenciam o impacto da acessibilidade sobre a performance dos empreendimentos. Enquanto os edifícios corporativos de alto padrão monitorados pela empresa registram uma taxa média de vacância próxima de 12%, o índice cai para aproximadamente 7,5% entre os imóveis certificados pelo Guiaderodas. Para Didziakas, o escritório foi ressignificado após a pandemia, deixando de ser apenas um local para trabalhar e passou a representar a cultura da organização, favorecer conexões e contribuir para a atração e retenção de talentos. Nesse contexto, ativos acessíveis, acolhedores e dotados de serviços e espaços de convivência tornam-se mais competitivos e preparados para atender uma população que mudará significativamente ao longo da vida útil do edifício. Adriano Sartori, CEO da CBRE Brasil, reforçou que a acessibilidade precisa ser considerada desde as etapas iniciais do projeto, quando ainda pode fazer parte da solução, e não somente no final, quando as inadequações já afetam a operação e exigem investimentos mais elevados. Ele observou que os edifícios, os acessos e as necessidades dos ocupantes se transformam ao longo do tempo, o que torna indispensável acompanhar continuamente a experiência dos usuários. Também ressaltou que a escolha de um imóvel corporativo se tornou uma decisão multidisciplinar, envolvendo Facilities, Recursos Humanos, Sustentabilidade, Finanças e outras áreas. Para Sartori, a demanda das empresas por imóveis certificados permanece forte e tende a influenciar cada vez mais a liquidez e o valor dos ativos, pois acessibilidade não pode existir apenas em pontos isolados, precisa estar presente em toda a jornada, da chegada ao edifício ao uso dos ambientes e serviços.
Gustavo Conrado, CFO da SAP Brasil, defendeu que acessibilidade, diversidade e inclusão devem ser institucionalizadas e incorporadas à gestão, evitando que sejam tratadas como projetos temporários, vulneráveis a mudanças de liderança ou cortes orçamentários. Ele apresentou quatro fundamentos para sustentar essa agenda: governança, processos, ferramentas e cultura, aos quais acrescentou consistência e persistência. A SAP iniciou sua jornada com o Guiaderodas em 2019, reformou o escritório de São Paulo durante a pandemia, conquistou a certificação da unidade em 2023 e avançou posteriormente para o Rio de Janeiro, com planos de levar o trabalho ao laboratório de desenvolvimento em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Conrado também destacou que 92% dos colaboradores brasileiros reconhecem a empresa como comprometida com acessibilidade, inclusão e diversidade, resultado que demonstra como a pauta pode fortalecer o engajamento e a própria identidade organizacional.
Pedro Pittella, diretor de Pessoas e Cultura da Sanofi, trouxe para o debate a necessidade de preparar as empresas para uma sociedade em transformação. O envelhecimento populacional, as diferentes condições físicas e cognitivas e a diversidade presente nas equipes tornam insuficiente pensar a acessibilidade somente como adaptação arquitetônica. A discussão precisa alcançar a cultura, a experiência dos colaboradores e a forma como as organizações atraem, acolhem e desenvolvem pessoas. Sua participação reforçou que a inclusão deve fazer parte das decisões internas e da proposta de valor das empresas, tornando os ambientes corporativos capazes de acompanhar as necessidades reais da população ao longo dos próximos anos.
Eduardo Muniz, CMO da Astra e Japi, relacionou acessibilidade à construção da reputação corporativa. Segundo ele, a marca é a síntese do negócio e sua credibilidade resulta das atitudes consistentes que a empresa adota ao longo do tempo. Por isso, não basta comunicar apoio à inclusão se as práticas internas e a experiência oferecida aos públicos não confirmarem esse posicionamento. Muniz lembrou que a reputação “sobe pela escada e desce pelo elevador”, exigindo disciplina, verdade e coerência. Na Astra, a acessibilidade responde tanto a valores internos ligados ao ESG quanto à estratégia de ampliar a relevância de uma linha de produtos destinada a esse mercado. A parceria com o Guiaderodas também está presente na concepção do novo prédio administrativo da companhia, contribuindo para transformar o compromisso declarado em uma experiência concreta para colaboradores, clientes e parceiros.
Ao final das apresentações, empresas e profissionais que implantaram ou mantiveram a Certificação Guiaderodas foram homenageados. O reconhecimento contemplou organizações e empreendimentos que seguem avaliando seus espaços, acompanhando a experiência dos usuários e promovendo melhorias contínuas. Após cinco anos consecutivos de manutenção, visitas técnicas e medição de desempenho, os locais podem alcançar o grau mais elevado da certificação, evidenciando que acessibilidade não é uma conquista definitiva, mas uma prática que precisa ser permanentemente atualizada.
Bruno Mahfuz, fundador do Guiaderodas, encerrou a celebração lembrando que a empresa nasceu para mudar a percepção de que acessibilidade seria um assunto restrito a normas e obrigações. Ao longo de dez anos, a organização buscou mostrar que inclusão também significa acolhimento, autonomia, inovação e qualidade da experiência. Mahfuz agradeceu às empresas parceiras, aos profissionais envolvidos nas certificações e à equipe que sustenta esse propósito, propondo um brinde à trajetória construída e aos próximos dez anos. O encerramento sintetizou a principal mensagem do encontro de que a acessibilidade não pode permanecer no discurso ou guardada em um relatório, ela precisa ser vivida, medida e aprimorada todos os dias.
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