Opinião - Carreira internacional em Facilities: existe uma barreira que quase ninguém menciona

Idioma fluente, certificações, networking e conhecimento do mercado local não garantem, por si só, a entrada de um profissional experiente em outro país. Ao relatar sua reinserção na Itália, o consultor Lamberto Grinover mostra como décadas de resultados podem perder parte do peso

Por Lamberto Grinover

Opinião - Carreira internacional em Facilities: existe uma barreira que quase ninguém menciona

Recentemente li, na InfraFM, o artigo "Facilities no exterior: o que um profissional brasileiro encontra ao tentar construir carreira fora do país". O texto aborda com propriedade os aspectos normalmente considerados antes de buscar oportunidades internacionais: idioma, certificações, legislação local, currículo e networking. Todos fundamentais.

Escrevo para acrescentar uma reflexão anterior a todas elas, que só consigo formular com clareza porque a estou vivendo na pele.

Há quase quatro anos moro em Roma. Segui praticamente todas as recomendações que se costuma realizar a quem pretende atuar no mercado europeu: idioma fluente, posicionamento profissional ajustado (contratei inclusive uma consultoria de “brand identity” da marca Grinover Consultoria), rede ampliada e um estudo cuidadoso das particularidades do mercado imobiliário local, bem diferentes, se diga de passagem, das particularidades do mercado de Real Estate de São Paulo. Levo comigo quase três décadas de bagagem, construídas na Nissan Itália (gerente de facilities da sede em Roma, entre 1997 e 2005) e, no Brasil, na Cushman & Wakefield, na Tishman Speyer e na Brookfield Properties.

Mesmo assim, esbarro numa dificuldade raramente mencionada: a barreira da credibilidade, do reconhecimento e do protecionismo.

Não falo de competência técnica, formação ou experiência acumulada. Falo de algo mais sutil: a dificuldade de convencer um mercado que não conhece sua história de que você é, de fato, capaz de entregar o que promete. Essa é, a meu ver, a maior diferença entre construir carreira no país de origem e construí-la em outro.

No Brasil, minha reputação foi erguida ao longo de anos: clientes conheciam clientes, empresas conheciam empresas, e havia um contexto compartilhado que reduzia a percepção de risco em qualquer contratação. Ao atravessar o oceano, boa parte desse patrimônio invisível naufragou.

Imagine um processo seletivo com quatro candidatos equivalentes: três construíram carreira naquele país, o quarto é estrangeiro. Mesmo com experiência e idioma equivalentes, o contratante tende a confiar mais nos candidatos locais. Não creio que seja preconceito — é gestão de risco, às vezes protecionismo. O contratante conhece as empresas, as universidades, as certificações e os fornecedores dos profissionais locais, e consegue referências "certificadas" rapidamente.

Comigo acontecia o oposto: empresas do meu currículo pouco conhecidas por aqui, resultados difíceis de comparar com a realidade local, competências que precisavam ser reinterpretadas dentro de outro ambiente regulatório. Até comunicação e estilo de liderança viravam incógnitas. Essa assimetria aumenta o risco percebido, e entre um profissional facilmente validável e outro cuja trajetória depende só do papel (que aceita tudo!), a decisão costuma ser previsível.

Isso não diminui em nada o valor da experiência brasileira. Pelo contrário: administrar operações complexas, negociar contratos relevantes, lidar com orçamentos apertados e decidir sob pressão constroem uma formação rica, foi ela que me trouxe até aqui. O desafio é transformar essa experiência em credibilidade percebida localmente. E isso exige mais que certificações: idiomas e networking ajudam, mas nada substitui o que leva anos para se construir — reconhecimento e confiança.

Talvez por isso tantos profissionais qualificados demorem mais do que imaginavam para conquistar a primeira oportunidade fora. O obstáculo não é só técnico, é de reputação. Isso também explica por que pode costumar ser mais fácil entrar primeiro em multinacionais, onde a experiência anterior é mais compreendida, ou começar por projetos específicos e recomendações pessoais. Foi um pouco esse o caminho que escolhi: a credibilidade se constrói aos poucos, como aconteceu no Brasil.

Há ainda uma variável pouco discutida: a idade. Em posições CLT, aqui fora e no Brasil também, o etarismo costuma jogar contra: empresas preferem investir em profissionais mais jovens, com mais anos de contribuição pela frente. Um estrangeiro com décadas de carreira soma duas desvantagens: vem de fora e chega mais tarde.

Mas essa variável se inverte na consultoria. Um cliente que contrata um consultor não está comprando anos de contribuição futura, está comprando know-how imediato e discernimento para decidir sob pressão. Aí a maturidade deixa de ser obstáculo e passa a ser exatamente o que se procura.

Foi essa percepção que me levou a focar a reinserção profissional na Itália na consultoria, e não na busca de um vínculo CLT: aqui, a mesma bagagem que soaria como desvantagem numa entrevista de emprego vira argumento de venda. Na prática, esse caminho me levou a algo que eu não havia planejado: hoje desenvolvo minha consultoria com empresas do Brasil, atuando remotamente a partir da Itália, não por falta de tentativa no mercado italiano, mas justamente pelas dificuldades descritas aqui. Enquanto a confiança local se constrói, devagar, faz sentido continuar entregando valor onde minha reputação já está consolidada.

Há também um aspecto cultural quase sempre negligenciado: Facilities e Property Management são moldados pela forma como cada sociedade ocupa e administra seus ativos imobiliários. Legislação, relações trabalhistas, contratos e cultura de negociação variam muito entre países. Não basta conhecer Facilities, é preciso entender como aquele país faz Facilities. E isso leva tempo.

Mas o maior desafio continua sendo convencer o mercado de que a experiência construída antes segue valendo, mesmo desenvolvida em outro contexto. Esse é o verdadeiro processo de internacionalização: não apenas aprender um idioma ou tirar uma certificação, mas reconstruir, quase do zero, um ativo que levou décadas para existir — a própria credibilidade profissional.

É uma etapa silenciosa e pouco discutida, mas não deve desanimar quem quer seguir esse caminho. Ao contrário: entender que essa barreira existe ajuda a calibrar expectativas e a investir no que realmente acelera a inserção — relacionamentos locais, conhecimento relevante, presença ativa nas comunidades profissionais e resultados concretos no novo contexto.

Competência abre portas. Mas é a confiança que permite atravessá-las.

Dito isso, nada aqui deve soar como desestímulo a quem cogita um caminho parecido, muito pelo contrário. Escrevo porque, olhando para trás, teria enfrentado esse início com mais leveza se soubesse que aquela barreira não era uma falha minha, mas a etapa natural de qualquer internacionalização de carreira. Quem já passou por décadas de operações complexas e decisões sob pressão vai atravessar essa fase também. No meu caso, ela abriu um caminho que eu nem havia planejado: hoje sirvo clientes que já confiam na minha trajetória, com a vantagem extra de olhar meu mercado de origem com a distância que só a experiência internacional dá. Se você pensa em um movimento assim, meu conselho é simples: comece antes de se sentir completamente pronto: a credibilidade que falta hoje se constrói exatamente enquanto se caminha.


Veja mais conteúdos

Conteúdos que gostaríamos de sugerir para a sua leitura.

Líderes de audiência

Data Center

BNDES amplia aposta em data centers nacionais com novo projeto de arquitetura modular

Financiamento de R$ 10,18 milhões para a ALGcom busca desenvolver uma solução brasileira capaz de reduzir em até 50% o tempo de implantação de data centers, em um momento de expansão da infraestrutura digital no país

Workplace

Licença-paternidade ampliada: o que essa mudança revela sobre os ambientes de trabalho?

A ampliação da licença-paternidade coloca um tema tradicionalmente tratado pelo RH dentro de uma discussão mais ampla sobre ocupação, experiência do colaborador e adaptação dos ambientes corporativos às novas formas de trabalho

Operações

CVM revê exigência para relatórios ESG e desloca discussão para a governança corporativa

Mudança na regulamentação da Comissão de Valores Mobiliários retira a obrigatoriedade da divulgação de informações de sustentabilidade a partir de 2026, mas pressão de investidores, financiadores e cadeias globais de valor tende a manter a agenda ESG no centro das estratégias empresariais

Workplace

Itaú amplia trabalho presencial para três dias. O híbrido está entrando em uma nova fase?

Nova política amplia a presença física para parte dos colaboradores e reforça uma tendência observada em grandes empresas: a discussão sobre trabalho híbrido começa a migrar da quantidade de dias no escritório para a gestão da cultura, da colaboração e da experiência dos times

Sugestões da Redação

Mercado

Real Estate em 2026. O que orienta a escolha entre ocupar, adaptar ou investir?

Relatório da JLL mostra como a redução da oferta de novos empreendimentos valoriza ativos de alta qualidade no mercado imobiliário global

Outside Work

Em 2026, sua casa terá um "CPF". Entenda o que é o Cadastro Imobiliário Brasileiro e como ele afe...

Um novo cadastro nacional vai reorganizar a forma como o Estado enxerga os imóveis no Brasil. A partir de 2026, essa mudança começa a impactar impostos, transações e a gestão patrimonial

Revista InfraFM

Quando saúde mental, liderança e Workplace viram estratégia de negócio

De Harvard a Oxford, passando por CEOs que já transformam lucro em bem-estar: Mind Summit mostra que o futuro das organizações não é sobre espaços para trabalhar, e sim sobre espaços que libertam o melhor das pessoas. Facilities & Workplace entram no centro da estratégia corporativa

Revista InfraFM

O engenheiro que também aprendeu a cuidar de prédios vivos

A arquitetura humana e tecnológica dos campi do Insper integra educação, convivência e networking

Revista InfraFM

O futuro já começou. Quem vai gerenciá-lo?

Projetando a sociedade do futuro para as nossas vidas

Revista InfraFM

Azul por dentro da operação que faz o Brasil voar

Infraestrutura que trata o avião como cliente e formação que sustenta a excelência operacional da companhia aérea