Por Léa Lobo
| William Vinicius,coordenador de Responsabilidade Socioambiental do Instituto Guima |
Em um setor que enfrenta dificuldades crescentes para contratar e reter profissionais, o Instituto Guima aposta em uma estratégia que combina responsabilidade social, desenvolvimento humano e resultados mensuráveis. A proposta é olhar para pessoas em situação de vulnerabilidade não como um problema, mas como uma potência de transformação social e, ao mesmo tempo, como profissionais capazes de ocupar oportunidades reais no mercado de multisserviços.
À frente dessa atuação está William Vinicius Pinto, doutor em Ciências Humanas e Sociais e coordenador de Responsabilidade Socioambiental do Instituto Guima. Com mais de duas décadas de experiência em organizações sociais, ele defende uma responsabilidade corporativa que seja, simultaneamente, “afetiva e efetiva”. “A afetividade está no acolhimento, na relação com as pessoas. Mas ela também precisa ser efetiva, trabalhar com resultados que possam ser acompanhados e mensurados”, explica.
Vulnerabilidade como potência
Um dos principais programas do Instituto é o Gerando o Futuro, realizado em parceria com organizações sociais e lideranças comunitárias. A iniciativa oferece formação para a função de auxiliar de limpeza, desenvolvimento de competências socioemocionais, orientação profissional e acesso direto aos processos seletivos da Guima. Os cursos são realizados dentro das próprias instituições parceiras, aproximando as oportunidades de públicos que, muitas vezes, permanecem invisíveis para o mercado formal. Entre os participantes estão pessoas em situação de rua, egressos do sistema prisional, mulheres vítimas de violência doméstica, imigrantes, refugiados e moradores de centros de acolhida.
Entre julho de 2024 e julho de 2026, o programa contou com 167 organizações parceiras, realizou 268 turmas e recebeu 4.365 participantes. Desse total, 3.258 pessoas concluíram a formação e foram aprovadas para seguir no processo seletivo. Ao todo, 1.421 profissionais foram contratados pela Guima Conseco, o equivalente a aproximadamente 10% do quadro da empresa. Outras 156 pessoas conseguiram emprego em organizações diferentes após participarem do curso. “Podemos dizer que perdemos essas pessoas para outra empresa, mas, na verdade, ficamos felizes. O objetivo principal é que elas encontrem uma oportunidade de trabalho e consigam reconstruir suas trajetórias”, afirma William.
Para o coordenador, é importante superar a ideia de que essas populações não possuem formação ou capacidade profissional. Segundo os dados apresentados pelo Instituto, cerca de 70% dos participantes possuem ensino médio completo. Há ainda pessoas com formação técnica, graduação e até pós-graduação.
Uma porta para a autonomia
William utiliza a imagem de uma porta para explicar o funcionamento do programa. O Instituto aproxima a oportunidade, oferece qualificação e apoio, mas a pessoa precisa participar do curso, realizar a entrevista e decidir “girar a maçaneta”. Esse movimento representa a busca por autonomia, renda e mobilidade social.
Um dos casos acompanhados pelo Instituto é o de um profissional que anteriormente vivia em situação de rua. Contratado em 2024, ele conseguiu alugar uma casa, iniciou um curso no Senai para tentar migrar para a área de manutenção, tirou férias pela primeira vez aos 45 anos, realizou o sonho de conhecer o Rio de Janeiro e agora se prepara para casar. “Ele chegou para me contar que iria se casar. Disse que nunca tinha tirado férias e que conseguiu viajar. É nesse momento que percebemos que não estamos falando apenas de uma contratação, mas de uma transformação completa de vida”, relata.
O acompanhamento não termina com a admissão. Durante os primeiros meses de contrato, a equipe do Instituto mantém contato frequente com os novos colaboradores, ajudando-os a superar dificuldades de adaptação, organizar documentos, acessar serviços públicos e permanecer no emprego. Em determinados casos, o apoio começa antes mesmo da contratação. Há pessoas que chegam até a sede da empresa, mas não conseguem entrar por medo, insegurança ou receio de discriminação. “Uma senhora chegou para fazer o exame admissional, mas ligou do outro lado da rua dizendo que não conseguiria entrar sozinha. Nossa equipe foi buscá-la. Hoje ela está trabalhando”, conta William.
Saúde mental como estratégia de cuidado e retenção
Além da empregabilidade, o Instituto Guima mantém uma estrutura dedicada à saúde mental de colaboradores e familiares. Por meio do programa Fique Bem, qualquer profissional pode procurar espontaneamente a equipe de psicologia ou ser encaminhado por um supervisor. Após o acolhimento inicial, a pessoa pode receber até oito sessões individuais de psicoterapia, realizadas por videochamada, telefone ou pelo formato mais acessível à realidade do colaborador.
Em dois anos, o Instituto contabilizou 7.312 pessoas atendidas em suas diferentes ações de saúde mental. Desse total, 1.268 aderiram ao acompanhamento psicoterapêutico. Foram realizadas 8.564 sessões, além da participação de 4.432 profissionais em palestras, rodas de conversa e atividades coletivas. Os indicadores também mostram reflexos na permanência dos profissionais na empresa. Entre os participantes do programa de psicoterapia, a taxa de retenção foi de 84% em 2024, 91% em 2025 e, até o momento da entrevista, 88% em 2026.
As rodas de conversa são realizadas diretamente nos contratos e ajudam a identificar pessoas que, mesmo em sofrimento, não conseguem procurar espontaneamente o atendimento. Em uma das ações, organizada após o falecimento de uma colaboradora, uma conversa sobre luto revelou outras situações emocionais que estavam afetando a equipe. O trabalho coletivo permitiu encaminhar profissionais para acompanhamento individual e apoiar as lideranças na retomada da rotina. “O ambiente de trabalho voltou a funcionar porque as pessoas tiveram espaço para falar, elaborar o sofrimento e receber o apoio necessário”, destaca William.
Lideranças preparadas para cuidar
A formação das lideranças ocupa um papel central na estratégia. Mais de 600 gestores já participaram de ações voltadas à inteligência emocional, humanização dos processos e identificação de sinais de sofrimento. Em um dos casos relatados, um gestor percebeu que uma colaboradora, normalmente comunicativa, havia se tornado silenciosa e passou a utilizar maquiagem em excesso. Sem fazer uma abordagem invasiva, ele a lembrou de que poderia procurar o Instituto. Durante o atendimento, a colaboradora retirou a maquiagem e revelou hematomas provocados por violência doméstica. “A sensibilidade daquele líder permitiu que ela chegasse até nós. Quando identificamos uma situação desse tipo, não estamos apenas prestando um atendimento. Podemos estar salvando uma vida”, afirma o coordenador.
A partir de experiências como essa, foi criado o programa Guima Acolhe Elas, destinado às profissionais vítimas de violência física, psicológica, patrimonial ou de outras formas de agressão. Como aproximadamente 75% da força de trabalho da empresa é formada por mulheres, o Instituto estruturou uma política específica de acolhimento. O atendimento reúne psicologia, recursos humanos, jurídico e saúde ocupacional. Dependendo do caso, a colaboradora pode ser transferida de posto ou de estado, receber acompanhamento psicoterapêutico e ser encaminhada para serviços públicos e locais de acolhimento sigiloso.
Mapeamento dos riscos psicossociais
O Instituto também criou uma área específica para avaliação dos riscos psicossociais presentes nos contratos e departamentos da empresa. Por meio de um questionário com 30 perguntas, os profissionais avaliam aspectos do ambiente de trabalho, das relações coletivas e das condições que podem favorecer o desenvolvimento ou o adoecimento emocional. Até o período da entrevista, 9.859 colaboradores haviam respondido ao levantamento, que reúne 14 indicadores de risco psicossocial. Os resultados são utilizados para elaborar planos de ação específicos para cada contrato.
Também foram realizadas 41 turmas de formação para 309 líderes dentro da iniciativa “Eu sou um líder que cuida”. “Hoje conseguimos apresentar à empresa um panorama de como está a saúde mental dos colaboradores e atuar de forma preventiva. Não se trata apenas de cuidar da pessoa depois que o problema aparece, mas de compreender o ambiente e construir soluções coletivamente”, explica William.
Responsabilidade compartilhada com os clientes
Na visão do Instituto, o cuidado com as pessoas precisa ser compartilhado entre a prestadora de serviços e seus clientes. Por isso, a apresentação dos programas sociais e de saúde mental já começa durante a fase de prospecção e implantação dos contratos privados. O objetivo é mostrar que a empresa não está fornecendo apenas mão de obra ou equipamentos, mas inserindo pessoas com histórias, dificuldades e potencialidades dentro da operação do cliente. “Não adianta desenvolvermos todo esse trabalho internamente se o colaborador chega ao contrato e encontra uma realidade completamente diferente. O cuidado precisa ser construído a quatro mãos”, ressalta.
Em alguns contratos, os próprios clientes passaram a participar das palestras, rodas de conversa e ações de conscientização promovidas pelo Instituto. A aproximação também ajuda a combater resistências à contratação de egressos do sistema prisional, pessoas em situação de rua e outros públicos vulneráveis. “O cliente precisa retirar a venda dos olhos e se abrir para o novo. São pessoas que buscam uma oportunidade e que, muitas vezes, desenvolvem um forte vínculo de pertencimento e reconhecimento pela empresa que abriu essa porta”, afirma William.
Sustentabilidade com impacto concreto
A atuação socioambiental também inclui campanhas de conscientização e mobilização dos colaboradores. Em uma das iniciativas, lacres de latinhas foram coletados e trocados por duas cadeiras de rodas, posteriormente doadas a uma organização comunitária de Paraisópolis. A orientação foi para que os equipamentos não fossem destinados a apenas uma pessoa, mas emprestados aos moradores conforme a necessidade. A ideia deu origem a um espaço comunitário de empréstimo de cadeiras de rodas, andadores e outros equipamentos.
O Instituto também realiza campanhas de arrecadação de roupas, cobertores, brinquedos e apoio a organizações que atendem crianças com câncer, pessoas em situação de acolhimento e comunidades em alta vulnerabilidade social. Para William, a diferença está na intencionalidade de cada ação. “Não fazemos isso simplesmente porque somos uma empresa legal ou porque queremos parecer bons. Existe um alinhamento conceitual e estratégico com os direitos humanos, com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e com os valores da organização”, diz.
Acolhimento que gera pertencimento
A trajetória pessoal de William ajuda a explicar sua atuação profissional. Filho de pedreiro e de dona de casa, ele decidiu cursar Pedagogia para ajudar na alfabetização de uma irmã com deficiência. A partir dessa experiência, aproximou-se da pedagogia social, das organizações da sociedade civil e do trabalho com populações em situação de vulnerabilidade.
Depois de aproximadamente 20 anos no terceiro setor, percebeu que muitas pessoas eram acolhidas e capacitadas pelas organizações sociais, mas continuavam sem acesso às empresas por causa de estigmas e preconceitos.
Ao ingressar no ambiente corporativo, viu a possibilidade de conectar as duas pontas. “Eu acredito no ser humano. Meu trabalho é dizer para a pessoa, você tem vez, você tem voz e você pode. Quando acolhemos, não reduzimos apenas a escassez de mão de obra. Construímos pertencimento”, conclui.
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