Obra de escritório ficou mais cara e menos previsível?

Relatório global da JLL mostra alta de até 6% nos custos de implantação de escritórios e acende alerta para empresas que planejam reformas, mudanças de sede ou novos ambientes corporativos

Por Redação

Obra de escritório ficou mais cara e menos previsível?

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Montar ou reformar um escritório deixou de ser apenas uma decisão de arquitetura, prazo e acabamento. O custo de um projeto corporativo passou a depender de variáveis mais difíceis de controlar, como câmbio, tarifas comerciais, disponibilidade de mão de obra especializada, preço de componentes elétricos e exigências crescentes de tecnologia.

O relatório Global Office Fit-Out Cost Guide 2026, da JLL, mostra que o custo médio para implantar escritórios aumentou entre 2% e 6% nas regiões analisadas no último ano. O estudo avaliou 68 cidades em 40 países e aponta que o valor global de referência para um escritório corporativo de padrão médio chegou a US$ 2.150 por metro quadrado.

A alta não pode ser lida apenas como inflação de obra. Segundo o relatório, tensões geopolíticas, aumento de energia, gargalos em cadeias de suprimento, escassez de mão de obra qualificada e novas demandas de infraestrutura tecnológica passaram a pesar de forma combinada nos projetos. As tarifas comerciais dos Estados Unidos aparecem como fator de pressão em 62% dos mercados pesquisados.

A obra ficou mais cara porque o escritório ficou mais complexo
O dado da JLL sugere que a discussão sobre custo de escritório mudou de natureza. O orçamento de uma obra corporativa já não depende apenas de metragem, padrão de acabamento e prazo de execução. Infraestrutura elétrica, sistemas mecânicos, conectividade, salas híbridas, automação, segurança, audiovisual e preparação para inteligência artificial passaram a entrar mais cedo na conta.

No Global Office Fit-Out Cost Guide 2026, a JLL aponta que sistemas mecânicos e elétricos podem responder por até 37% do custo total de um projeto. Já as obras civis, incluindo divisórias, pisos e acabamentos, podem chegar a 29%.

Essa composição ajuda a explicar por que o planejamento financeiro se tornou mais sensível. Quando a infraestrutura técnica concentra parte relevante do orçamento, variações no preço do cobre, prazo de entrega de equipamentos importados, disponibilidade de instaladores e especificações de tecnologia podem alterar significativamente o valor final.

“O que as empresas estão sentindo na prática é que o custo de um projeto muda entre o momento em que você aprova o orçamento e o momento em que a obra começa. Câmbio, prazo de entrega de equipamentos importados, disponibilidade de mão de obra, tudo isso virou variável. E no Brasil isso é sentido de forma bastante concreta, porque dependemos muito de importação para projetos de maior complexidade”, afirma Helena Diodatti, diretora de Projetos e Obras para Escritórios da JLL Brasil.

São Paulo entra na mesma lógica global, com pressões locais
Na América Latina, o custo médio apontado pela JLL ficou em US$ 1.800 por metro quadrado. O valor está acima da média da Ásia Pacífico, de US$ 1.550 por metro quadrado, mas abaixo da Europa, com US$ 2.300 por metro quadrado, e da América do Norte, que aparece como a região mais cara do levantamento, com US$ 3.200 por metro quadrado.

São Paulo integra o grupo de cidades monitoradas pela JLL na região. Embora o custo médio latino americano esteja abaixo dos mercados mais caros, o relatório indica que a região não está isolada das pressões globais. Projetos com padrão internacional continuam expostos a câmbio, componentes importados, prazos logísticos e disponibilidade de fornecedores especializados.

“São Paulo tem uma particularidade: as empresas aqui precisam atender a um padrão de especificação global, mas executar em um mercado com suas próprias complexidades: câmbio, cadeia de fornecimento, prazos de importação. Isso cria uma pressão específica que a gente vê no dia a dia dos projetos. Nosso papel é apoiar o cliente na identificação de onde o investimento realmente agrega valor. Afinal, um bom projeto não é aquele com maior orçamento, mas aquele fundamentado em decisões estratégicas e bem alinhadas ao contexto do negócio”, explica Diodatti.

A leitura para áreas de property, facilities e projetos pode ser direta: a comparação entre cidades já não deve considerar apenas preço por metro quadrado. Também precisa observar risco de execução, prazo de fornecimento, exigências técnicas do projeto, dependência de importação e capacidade local de mão de obra.

Tecnologia deixou de ser item adicional
O avanço do trabalho híbrido também mudou o peso da tecnologia nos escritórios. Salas preparadas para reuniões com participantes presenciais e remotos, redes mais robustas, sensores, reserva de posições, controle de acesso, sistemas de audiovisual e infraestrutura para dados passaram a influenciar a qualidade de uso do ambiente.

O relatório 2025 Americas Office Occupier Sentiment Survey, da CBRE, já havia indicado que empresas continuam revisando estratégias de ocupação diante do modelo híbrido, com atenção a experiência, eficiência imobiliária e adequação dos espaços. Esse contexto ajuda a explicar por que a obra corporativa passa a exigir decisões mais integradas entre espaço, tecnologia e operação.

A tecnologia, portanto, não aparece apenas como melhoria estética ou recurso de conveniência. Em muitos projetos, ela passa a ser parte da infraestrutura básica para que o escritório funcione de acordo com a forma atual de trabalho.

Essa leitura também conversa com o relatório Gensler Global Workplace Survey 2025, da Gensler, que associa ambientes de maior desempenho à variedade de espaços, suporte ao foco, colaboração, aprendizagem e bem estar. Quanto mais diverso o uso do escritório, maior tende a ser a necessidade de infraestrutura técnica bem planejada.

O tipo de layout muda o orçamento antes do acabamento
Um ponto relevante do Global Office Fit-Out Cost Guide 2026 é a relação entre tipologia de escritório e custo. Segundo a JLL, a escolha do modelo de layout pode alterar o valor total do projeto em 10% a 30%, dependendo das especificações e da configuração adotada.

Esse dado pode mudar a forma como empresas avaliam reformas. Muitas vezes, o debate começa pelo padrão de acabamento. Mas o relatório sugere que decisões anteriores, como densidade, quantidade de salas fechadas, proporção entre áreas colaborativas e individuais, exigência de salas híbridas e complexidade dos sistemas técnicos, já influenciam fortemente o orçamento.

Na prática, isso significa que um projeto de escritório pode ficar mais caro antes mesmo da escolha final de mobiliário, revestimentos ou itens de decoração. A forma de uso do espaço passou a pesar no custo tanto quanto a aparência final.

Planejamento financeiro virou parte da estratégia de obra
A recomendação central do relatório da JLL é antecipar decisões. O estudo indica que uma postura passiva diante de preços, fornecedores e escopo pode ampliar custos. A orientação é tratar o planejamento financeiro desde a fase de concepção, especialmente nos itens mais expostos à volatilidade.

Isso inclui buscar compromissos de preço fixo para componentes críticos, revisar alternativas de especificação, avaliar prazos de importação, mapear riscos de fornecimento e tratar sistemas mecânicos e elétricos como investimento de longo prazo.

Para empresas que planejam mudança de sede, expansão ou reforma, a consequência pode ser prática: o orçamento precisa nascer mais próximo da operação real. Projetos que separam decisão imobiliária, desenho arquitetônico, tecnologia, manutenção e custo energético tendem a correr mais risco de revisão durante a execução.

O que gestores devem observar antes de reformar
Os dados da JLL sugerem que o primeiro ponto de atenção é a previsibilidade. Em um cenário de custos mais sensíveis, aprovar um orçamento sem considerar câmbio, cadeia de suprimentos, mão de obra e infraestrutura técnica pode gerar diferença relevante entre o projeto aprovado e o projeto executado.

O segundo ponto é a integração entre obra e operação. Sistemas de climatização, elétrica, automação, audiovisual e conectividade não deveriam ser tratados como adições finais, porque podem representar parte expressiva do custo e influenciar diretamente a experiência de uso do escritório.

O terceiro ponto é a relação entre layout e desempenho. Escritórios com mais salas híbridas, áreas multiuso, zonas de foco e espaços colaborativos podem atender melhor à rotina atual, mas também exigem planejamento técnico mais rigoroso.

O quarto ponto é a leitura de valor. Como observa Helena Diodatti, o melhor projeto não é necessariamente o mais caro, mas aquele em que o investimento está alinhado ao contexto do negócio. Essa distinção tende a ganhar peso em um momento em que cada metro quadrado precisa justificar custo, uso e contribuição para a operação.

O escritório como decisão de risco
A alta de até 6% nos custos globais de implantação não significa apenas que obras ficaram mais caras. O relatório da JLL indica que montar ou reformar escritórios se tornou uma decisão mais exposta a riscos externos e internos.

Externamente, pesam geopolítica, tarifas, energia, cadeia de fornecimento e escassez de mão de obra. Internamente, pesam decisões sobre modelo de trabalho, densidade, tecnologia, experiência do colaborador e vida útil dos sistemas instalados.

Esse conjunto sugere que o escritório corporativo deixou de ser um projeto pontual de obra e passou a exigir governança mais próxima de uma decisão de investimento. Para facilities, property, engenharia e liderança financeira, a pergunta central deixa de ser apenas quanto custa reformar. Passa a ser quanto custa errar a especificação, atrasar a decisão ou subestimar a complexidade do projeto.

Como construímos este material
Esta matéria foi desenvolvida com base no relatório Global Office Fit-Out Cost Guide 2026, da JLL, publicado em abril de 2026. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].


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