Por Fabio Interaminense

| Fabio Interaminense é Síndico Profissional, diretor da LG Corporate (Comerciais) e da TBL Consultoria (Residenciais), Consultor e Palestrante. |
A palavra confiança tem origem no latim confidentia, derivada do verbo confidere (“acreditar plenamente, com firmeza”). O termo é formado pelo prefixo con- (intensificativo, indicando “junto” ou “completamente”) mais fidere (“ter fé, crer, acreditar”). Etimologicamente, significa acreditar com firmeza e segurança. Toda relação pessoal ou comercial bem-sucedida e duradoura tem a confiança na sua base. Dela também derivam outras construções comportamentais fundamentais para qualquer ambiente profissional saudável, como respeito, credibilidade, parceria, previsibilidade e segurança.
E no setor condominial, dinâmico e repleto de desafios diários, uma relação de confiança entre o síndico e a empresa de facilities, além de outros atores do ecossistema, como administradoras, property e facility management e demais fornecedores do empreendimento, é extremamente essencial para que a operação funcione de forma integrada e eficiente. Muitas vezes, o mercado fala sobre tecnologia, indicadores, controles operacionais, SLA, redução de custos e eficiência, temas que naturalmente são importantes. Mas, na prática, quem vive o dia a dia da operação sabe que a qualidade do relacionamento humano entre as partes ainda é um dos principais fatores para o sucesso ou fracasso de uma gestão. Uma operação condominial pode ter excelentes sistemas, equipamentos modernos e processos bem definidos, mas, sem confiança entre síndico, gestores, colaboradores e fornecedores, inevitavelmente surgem ruídos, retrabalho, desgaste emocional, conflitos desnecessários e perda de produtividade.
Sou síndico profissional, depois de ter iniciado em 2017 como síndico morador do meu condomínio em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. E, desde a minha atuação de 25 anos como executivo no mercado corporativo, liderando times em empresas nacionais e internacionais, a minha relação com colaboradores, parceiros e fornecedores tinha - e tem até hoje - um princípio simples e básico: só trabalho com quem eu confio. E confiança não significa ausência de cobrança, excesso de informalidade ou falta de acompanhamento. Pelo contrário. Relações maduras e profissionais conseguem equilibrar proximidade com responsabilidade, diálogo com resultado e parceria com compromisso.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que uma boa empresa de facilities services não deve ser vista apenas como prestadora de serviço. Ela precisa ser percebida como parceira estratégica da operação. Afinal, são esses profissionais que muitas vezes estão na linha de frente da experiência dos usuários do empreendimento, da segurança, da limpeza, da manutenção, do atendimento e do funcionamento diário do condomínio.
E para ter um alinhamento objetivo, firme e com propósito nas reuniões com fornecedores, além dos fatos e números apresentados em dashboards, planilhas e plataformas de gestão, eu gosto de utilizar três perguntas simples que fazem toda a diferença:
Primeira: o que está indo bem? É o momento de reconhecer o bom trabalho, valorizar avanços e reforçar comportamentos positivos. Muitas lideranças falham por focar apenas nos problemas, esquecendo que reconhecimento também gera engajamento e confiança.
Segunda: o que precisa melhorar? Essa pergunta mostra maturidade e abertura para evolução contínua. Demonstra que você se importa com o crescimento da operação e quer ajudar a resolver os desafios de forma conjunta, sem criar um ambiente de medo ou confronto.
E terceira: como posso te ajudar? Essa talvez seja a mais poderosa de todas, porque cria proximidade, fortalece o senso de parceria e mostra que o líder está junto no processo, e não apenas cobrando resultados à distância.
Na sua próxima reunião de alinhamento, tente utilizar essa técnica e esteja realmente aberto para ouvir o que será relatado pelo seu parceiro. Muitas vezes, problemas operacionais escondem falhas de comunicação, desalinhamentos de expectativa ou dificuldades que poderiam ser resolvidas de forma simples com mais escuta e presença da liderança. Outro ponto importante é entender que confiança não nasce apenas nos grandes momentos ou em situações extraordinárias. Ela é construída principalmente nos pequenos detalhes do cotidiano: em um retorno dado no prazo combinado, em uma comunicação transparente, em um alinhamento claro antes de uma mudança operacional, em uma postura ética diante de um erro ou em uma decisão equilibrada em momentos de pressão.
Para finalizar, eu gosto de usar uma metáfora simples para explicar como a confiança se constrói entre o síndico e os fornecedores, como a empresa de facilities: a metáfora de consumir um quilo de açúcar e um quilo de sal com uma pessoa. Imagine um quilo de açúcar. É fácil de consumir: faz um pudim, uma torta, um doce e, em pouco tempo, o pacote acaba.
Agora imagine um quilo de sal. Leva tempo. Você usa uma pitada no arroz, um pouco no feijão, uma colherinha no macarrão. Vai aos poucos. E só depois de muitas refeições, muitas conversas, muitas situações e muitas interações é que o sal termina. A confiança no relacionamento profissional é igual ao sal. Ela não vem de uma vez - vem de cada reunião bem conduzida, de cada aviso bem comunicado, de cada alinhamento bem-feito, de cada decisão justa. E de cada problema resolvido com equilíbrio e respeito.
E se você está começando um relacionamento com um novo fornecedor no setor condominial agora, talvez ainda esteja nos primeiros grãos desse sal. Mas insista. Continue temperando suas ações com empatia, escuta, coerência e presença. Porque sim, confiança leva tempo. Mas, colherada por colherada, ela se constrói.