Quando a empresa cuida do sonho de uma mãe ou de um pai, ela retém o talento

Fertilidade corporativa deixa de ser tema íntimo e passa a integrar a agenda estratégica das organizações

Por Léa Lobo

Quando a empresa cuida do sonho de uma mãe ou de um pai, ela retém o talento

Foto: CEO Chris Rego da FertiGroup


Em março, o Grupo Mulheres de Facilities abriu espaço para uma conversa que foi muito além de um jantar entre executivas. As diretoras e anfitriãs Adriana Pan e Daniella Barbosa receberam a equipe de FertiGroup, liderada pela CEO Chris Rego, para apresentar uma inovação que pode transformar a forma como empresas cuidam de seus colaboradores quando o assunto é medicina reprodutiva.

O encontro partiu de uma premissa simples e poderosa. Por trás de todo CNPJ existe um CPF. E esse CPF sente, sonha, sofre e, muitas vezes, enfrenta em silêncio a dificuldade de engravidar. A proposta do FertiGroup é unir ciência, corpo clínico especializado e presença nacional para tornar possível o sonho de formar uma família, ao mesmo tempo em que estrutura um modelo corporativo viável para as empresas oferecerem fertilidade como benefício.

Hoje, quase tudo começa depois da gravidez. Plano de saúde, licença-maternidade, auxílio-creche, licença-paternidade. Mas o que existe antes disso? Quem apoia a mulher ou o casal no momento mais sensível, quando a gravidez ainda é tentativa, frustração, ansiedade e medo? É aí que mora a lacuna.


Um tema pessoal que impacta resultado

Dados apresentados durante o encontro mostraram que infertilidade não é apenas uma questão médica. É organizacional. Impacta saúde mental, engajamento e produtividade.

Pesquisas internacionais apontam índices elevados de ansiedade e depressão em casais que enfrentam dificuldades para engravidar. Segundo estudos citados pelo grupo, empresas que passaram a oferecer benefícios ligados à fertilidade registraram aumento significativo na retenção de talentos e no tempo de permanência dos colaboradores.

Quando uma profissional enfrenta meses ou anos de tentativas frustradas, exames, tratamentos e perdas gestacionais, ela não deixa essa dor na porta da empresa. Ela carrega isso para dentro da rotina. A performance sofre. O foco diminui. O risco de burnout aumenta. Ignorar esse tema não o torna invisível. Apenas o transforma em silêncio corporativo.


Foresight, não apenas orçamento

Quando a empresa cuida do sonho de uma mãe ou de um pai, ela retém o talento

Foto:  Edilaine Siena (Grupo GPS), Léa Lobo (InfraFM) e Lívia Lourenço (Abrafac e JLL)


A CEO Chris Rego trouxe uma reflexão interessante. Existe o forecast, o orçamento tradicional, e existe o foresight, a visão de futuro. Fertilidade corporativa não é apenas um benefício adicional. É uma leitura estratégica das mudanças sociais. Hoje, a maioria das mulheres tem filhos após os 35 anos. Modelos de família mudaram. Casais homoafetivos, segundas uniões, mulheres que desejam postergar a maternidade para consolidar carreira. A decisão de ter ou não ter filhos passou a ser mais consciente e também mais complexa. Nesse cenário, o congelamento de óvulos e a fertilização in vitro deixam de ser luxo e passam a ser ferramenta de planejamento de vida.

O FertiGroup hoje conta com 16 clínicas distribuídas em 9 estados brasileiros, com mais de 200 médicos em seu corpo clínico. O projeto tem como meta ampliar presença nacional e garantir que o acesso ao tratamento não esteja restrito aos grandes centros.


Benefício estratégico para atração e retenção

Grandes empresas globais já entenderam o impacto do tema e figuram entre organizações que estruturaram políticas de apoio à fertilidade como parte de sua estratégia de marca empregadora. No Brasil, o movimento ainda é embrionário. E isso representa uma oportunidade. Oferecer acesso estruturado à informação, aconselhamento médico especializado, governança clara e confidencialidade pode se tornar diferencial competitivo em um mercado que enfrenta altos índices de turnover e dificuldade de retenção de mulheres em cargos de média e alta liderança. Segundo dados mencionados no encontro, quase metade das empresas enfrenta desafios na retenção feminina após a licença-maternidade. O apoio antes da gravidez pode ser o elo que faltava nessa jornada.


Facilities também é protagonista

Quando a empresa cuida do sonho de uma mãe ou de um pai, ela retém o talento

Foto: Divulgação


E aqui há um ponto relevante para o setor de Facilities Management. A fertilidade corporativa não é responsabilidade exclusiva do RH. É um tema de cultura organizacional. E cultura passa por governança, infraestrutura, comitês internos e liderança transversal. Facilities, como área estratégica que conecta pessoas, espaços e experiência do colaborador, pode ser ponte entre a pauta médica e a prática corporativa. Pode ajudar a estruturar comitês, apoiar ações educativas, integrar medicina ocupacional, RH e liderança executiva. Cuidar do colaborador não é apenas oferecer café de qualidade ou ambiente ergonomicamente adequado. É reconhecer que existem momentos de vida que exigem coragem institucional para apoiar.

​O encontro do Grupo Mulheres de Facilities não foi apenas sobre reprodução assistida. Foi sobre permanência, pertencimento e cultura. A provocação é que empresas que desejam liderar o futuro do trabalho precisarão ir além da performance e do orçamento. Precisarão apoiar decisões de vida. Fertilidade não é um tema privado isolado. É uma agenda estratégica de futuro organizacional. E talvez esteja na hora de o mercado brasileiro entender que reter talentos também passa por apoiar sonhos.


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