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Conforto nos ambientes e a era da neuroarquitetura

Como os pilares dessa nova concepção de construção de ambientes retoma e transforma o olhar sobre velhos conceitos dos projetos de sucesso.

Conforto nos ambientes e a era da neuroarquitetura

Foto: aislan13/canva.com


Por Lorí Crízel

O que faz um ambiente ser considerado confortável, capaz de transmitir uma quase indescritível sensação de acolhimento e aconchego? O conceito de conforto é universal? O que é confortável para uma pessoa é também confortável para outras? Quando se fala em conforto ambiental nos espaços é, muitas vezes, automática a relação que fazemos entre o espaço e a disposição do mobiliário, considerando móveis e objetos de decoração. Entretanto, quando esse mesmo ambiente é visto a partir dos conceitos da neuroarquitetura, a proposta vai muito além da comodidade proporcionada apenas por seus elementos estéticos.

A climatização adotada, a condição acústica almejada e a iluminação mais adequada para o ambiente são elementos que também compõem o grupo de fatores considerados fundamentais para oferecer aos usuários uma experiência qualificada e positiva.

Quando falamos de conforto ambiental, por exemplo, estamos falando, em termos técnicos, de conforto térmico, acústico e lumínico. Esses são os pilares do conforto ambiental. No entanto, quanto buscamos um nível experiencial do espaço, os mesmos elementos devem ser vistos não apenas como parte de um escopo técnico, mas humanizado, onde geografia, cultura, identidade e apropriação, dentre outros aspectos, devem ser considerados. Um índice de conforto tecnicamente tido como aceitável em uma dada região pode vir a não ser assim percebido em outra, por exemplo.

As ferramentas da neurociência não seguem uma "receita padrão" e, para serem aplicadas na arquitetura, precisam priorizar o perfil dos seus usuários e as características dos locais, que nortearão as escolhas a serem feitas em cada projeto de maneira personalizada. O universo da neuroarquitetura se estrutura em diversas condicionantes humanas de percepção, apropriação, identidade, cultura e até mesmo simbolismos e significados. Claramente, a condicionante de conforto ambiental é uma delas.

Se seguirmos pela linha de raciocínio de que a sensação de conforto também é um elemento individualizado por pessoa ou grupo de pessoas numa dada atividade, e que este elemento é um dos configuradores de uma determinada experiência, pode-se ponderar que a temperatura ambiente considerada normativamente ideal seria entre 20ºC e 23ºC, mas ela é a ideal para quem, onde e em quais circunstâncias?

Diversos fatores têm de ser levados em consideração para definirmos também a condição acústica de um determinado espaço. Eu posso considerar uma NBR que faz a mensuração de conforto em decibéis. Mas, se você vai a uma casa noturna e consequentemente quer ouvir música alta, a condicionante técnica cai por terra quando se privilegia a condição da experiência. Tendo em mente esse exemplo, vê-se que o ideal é trabalhar com a questão da experiência do usuário.

​Os elementos dessa área técnica da neuroarquitetura nos projetos buscam vir a ser geradores de uma resposta comportamental na conduta dos usuários. O simples ato de ouvirmos uma música pode vir a ser um configurador de comportamento. Isso não tem, necessariamente, ligação com a intensidade (som mais alto ou baixo), mas, sim, com o que eu estou traduzindo como significado desse som que estou ouvindo e a forma pela qual eu me coligo com ele, o que ele representa para mim, a que ele me remete.

Os reflexos comportamentais e as sensações de conforto nos ambientes também vão variar de acordo com o tipo de iluminação escolhida. A iluminação, dependendo de sua temperatura de cor, intensidade e a maneira como é projetada, pode vir a provocar diferentes estímulos, que, em alguns casos, podem até ser prejudiciais para o tipo de atividade exercida em um espaço.

Devemos organizar os projetos luminotécnicos de inúmeras formas para que esse tipo de situação não ocorra, para que você não tenha o acionamento fisiológico impróprio para um determinado horário ou para uma determinada função. Um exemplo é o de pessoas que têm dificuldade para dormir e antes de deitar-se, ficam assistindo TV ou mexendo no celular. Tanto a tela da TV quanto a do telefone emitem uma luz com grande porção de espectro azul, que induz nosso corpo a liberar hormônios desencadeadores de estados atencionais e/ou que nos mantêm despertos, e, assim, essas pessoas demoram mais para entrar em estado de sonolência.


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