Por Redação

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Em que momento checar o celular, acompanhar influenciadores ou fazer compras pela internet deixa de ser apenas parte do dia e passa a indicar perda de controle? A pergunta importa porque muitos desses comportamentos parecem normais quando vistos isoladamente, mas podem ganhar outro significado quando continuam acontecendo mesmo trazendo prejuízo emocional, financeiro ou nas relações.
Um estudo publicado em 2023 analisou justamente essa fronteira. A pesquisa comparou pessoas com comportamento compulsivo de compras online e pessoas com uso problemático de redes sociais. A principal conclusão é que, apesar das diferenças entre os dois padrões, eles compartilham pontos importantes, como dificuldade de parar, sofrimento e impacto na vida cotidiana.
Quando o digital deixa de ser apenas conveniência
A análise envolveu 78 participantes divididos em dois grupos: um com comportamento compulsivo de compras online e outro com uso problemático de redes sociais. Mesmo com perfis diferentes, os dois grupos apresentaram níveis parecidos de prejuízo no dia a dia.
A diferença entre uso frequente e uso problemático aparece com clareza nesse ponto. O alerta não está apenas em usar muito uma plataforma ou comprar com frequência. O problema começa a ganhar peso quando há perda de controle, dificuldade de interromper o comportamento e continuidade mesmo diante de consequências negativas.
Essa leitura ajuda a evitar dois extremos. De um lado, tratar qualquer hábito digital como problema de saúde. De outro, ignorar sinais de sofrimento porque o comportamento parece comum. O ponto de atenção está menos no ato isolado e mais no impacto que ele passa a ter na rotina.
Redes sociais e compras cada vez mais conectadas
O estudo também chama atenção para a proximidade crescente entre redes sociais e consumo. Hoje, conteúdo, recomendação e compra aparecem dentro do mesmo fluxo. A pessoa vê um produto, acompanha uma opinião, compara opções, recebe estímulos e pode finalizar a compra sem sair da plataforma.
Os dados mostram que quem apresenta uso problemático de redes sociais tende a ver mais conteúdos de influenciadores. Ao mesmo tempo, participantes dos dois grupos relataram vontade de acessar redes ou comprar após esse tipo de exposição.
Isso ajuda a explicar por que a fronteira entre entretenimento, comparação e consumo ficou menos clara. A rede social deixou de ser apenas espaço de conversa ou distração. Para muita gente, ela também se tornou vitrine, recomendação, loja e ambiente de comparação constante.
Outras pesquisas sobre comportamento digital indicam que conteúdos de influenciadores e interações sociais podem aumentar a chance de compras por impulso, especialmente quando o consumo acontece dentro do próprio ambiente social.
O papel do estresse na rotina digital
Um dos pontos mais relevantes aparece na relação com o estresse. No grupo com uso problemático de redes sociais, níveis mais altos de estresse estiveram associados a maior intensidade do comportamento.
Isso não significa que o estresse seja a causa direta do uso problemático. Ainda assim, o dado sugere que, para algumas pessoas, as redes sociais podem funcionar como tentativa de aliviar tensão, preocupação, tédio ou sobrecarga.
Essa interpretação é importante porque desloca a discussão da ideia de “falta de força de vontade”. Em muitos casos, o comportamento repetido pode estar ligado a uma tentativa de buscar alívio rápido em meio a uma rotina pressionada.
Outras pesquisas também associam o uso problemático de redes sociais a pior bem-estar, além de maior presença de sinais como tristeza, solidão e sensação de esgotamento.
Tempo de tela não explica tudo
O estudo mostrou que o grupo com uso problemático de redes sociais passava mais de cinco horas por dia nessas plataformas. Já o grupo com compras online compulsivas ficava cerca de duas horas por dia em sites de compra.
Mesmo com essa diferença de tempo, os dois grupos apresentaram níveis semelhantes de impacto negativo. Esse dado muda o foco da conversa. O problema não está apenas na quantidade de horas conectado, mas no papel que aquele comportamento ocupa na vida da pessoa.
Um uso menor em tempo pode ser bastante prejudicial quando envolve perda de controle, dívidas, conflitos familiares, queda de bem-estar ou abandono de outras atividades. Por outro lado, o uso frequente nem sempre representa um problema quando existe controle, equilíbrio e ausência de prejuízo.
Consumo, comparação e vulnerabilidade emocional
No grupo com compras online compulsivas, apareceu uma maior valorização do consumo como forma de recompensa ou expressão pessoal. Esse padrão ajuda a entender por que comprar pode deixar de ser apenas uma decisão prática e passar a funcionar como resposta emocional.
Quando a compra passa a aliviar frustração, preencher vazio, compensar cansaço ou reforçar uma imagem desejada, o ambiente digital pode ampliar a vulnerabilidade. A facilidade de acesso, a personalização dos anúncios e a sensação de urgência tornam a decisão mais rápida e menos refletida.
Esse ponto também conversa com a lógica das redes sociais. A exposição constante a estilos de vida, produtos, viagens, roupas, corpos e conquistas pode aumentar comparação e desejo de pertencimento. Para algumas pessoas, comprar passa a parecer uma forma imediata de reduzir essa distância.
O que esse estudo acrescenta à conversa sobre saúde
A pesquisa não sugere que todo uso de redes sociais ou toda compra online seja um problema. O ponto central é outro: diferenciar o que é hábito do que começa a gerar prejuízo.
Os sinais de atenção aparecem quando há perda de controle, sofrimento, impacto financeiro, conflitos, piora do bem-estar ou dificuldade de interromper o comportamento mesmo percebendo consequências negativas.
Essa leitura se torna ainda mais relevante porque grande parte da vida cotidiana já acontece dentro de plataformas digitais. Trabalhar, comprar, conversar, buscar informação e se divertir passam pelos mesmos dispositivos. Quando tantas atividades se concentram no mesmo ambiente, o limite entre uso saudável e comportamento problemático tende a ficar menos evidente.
Uma leitura mais prática
O estudo ajuda a mudar a pergunta. Em vez de olhar apenas para o tempo de tela ou para a frequência das compras, passa a ser mais importante observar o efeito real do comportamento.
A pessoa consegue parar quando quer? O uso está substituindo relações, descanso ou responsabilidades? A compra gera alívio momentâneo e arrependimento depois? O comportamento continua mesmo quando há prejuízo financeiro ou emocional? Essas perguntas são mais úteis do que contar apenas quantas horas alguém passou conectado.
No fim, a discussão não é sobre demonizar redes sociais ou compras online. O ponto é reconhecer quando uma rotina digital aparentemente comum começa a ocupar espaço demais, reduzir autonomia e gerar sofrimento.
Como construímos este material
Esta matéria foi desenvolvida com base no estudo Online compulsive buying-shopping disorder and social networks-use disorder: More similarities than differences?, publicado em 2023 na revista Comprehensive Psychiatry. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].