O primeiro projeto arquitetônico apresentado para o novo escritório da Yuwell no Brasil agradou Henrique Tso. “Ficou fantástico”, lembra o gerente de Recursos Humanos para a América Latina da companhia. A proposta, porém, não foi aprovada pela matriz chinesa. Não se tratava apenas de custo ou de uma discordância estética. Para a empresa, aquele espaço estava distante do padrão adotado nos demais escritórios da Yuwell.
A orientação vinda da China foi objetiva: seguir o padrão. A partir dali, uma implantação de aproximadamente 200 m², no complexo Rochaverá, em São Paulo, passou a revelar como diferenças culturais e referências corporativas podem chegar a decisões bastante concretas de um projeto: metragem, desenho, fornecedores, orçamento, aprovações e até o tempo necessário para resolver uma pendência.
Responsável por estruturar as equipes locais da Yuwell na América Latina, Henrique assumiu também a implantação do escritório. Até então, a companhia comercializava seus produtos no Brasil por meio de distribuidores. A decisão de estabelecer sua primeira subsidiária latino-americana no país envolvia abrir o CNPJ, formar áreas locais, como Finanças e Logística, e preparar a estrutura para que a empresa passasse a operar diretamente no mercado brasileiro.
O endereço físico fazia parte desse processo. Segundo Henrique, enquanto a subsidiária era formalizada, a companhia também avançava nas etapas regulatórias necessárias para comercializar diretamente seus equipamentos, incluindo o processo junto à Anvisa. Esperar toda a constituição da empresa terminar para depois procurar um imóvel poderia alongar o cronograma. Por isso, formalização da operação, busca pelo espaço e implantação do escritório avançaram em paralelo.

| Henrique Tso conheceu a Workplace Arquitetura durante a Expo InfraFM 2025, onde a empresa participava como expositora. A conversa iniciada no evento avançou rapidamente e deu origem à parceria para a implantação do novo escritório da Yuwell no Brasil. Foto: Divulgação |
Conhecer a matriz antes de projetar a filial
Uma viagem à China ajudou Henrique a entender o que a matriz esperava do novo espaço. Nos escritórios da companhia, ele encontrou ambientes predominantemente claros, com branco, cinza, vidro e aproveitamento da iluminação natural. Durante o desenvolvimento do escritório brasileiro, chegou a enviar vídeos à Workplace Arquitetura, responsável pelo projeto, para mostrar essas referências.
A visita também permitiu observar aspectos que não apareciam no desenho dos escritórios. Henrique encontrou hábitos de trabalho diferentes daqueles com que estava acostumado no Brasil. Depois do almoço, por exemplo, as luzes eram reduzidas e alguns profissionais aproveitavam o intervalo para descansar, ler ou ouvir música. Também percebeu diferenças nas relações hierárquicas, na comunicação e na maneira de conduzir discussões de trabalho.
As referências que Henrique encontrou nos escritórios da Yuwell iam além das escolhas estéticas. Segundo ele, havia uma preocupação para que executivos da companhia reconhecessem o DNA da empresa ao visitar escritórios em diferentes países. Também pesava a dimensão do investimento. Como a operação brasileira estava começando, a matriz manteve a orientação de trabalhar com aproximadamente 200 m², mesmo diante de opções maiores avaliadas durante a busca pelo imóvel.
O espaço precisava ainda responder a uma necessidade local. Além das estações de trabalho, foram previstas salas de reunião e uma área de showroom para demonstração dos equipamentos médicos comercializados pela companhia. A configuração mudou durante o projeto: após uma visita do presidente, a decisão foi ampliar o showroom. O escritório passou a receber também distribuidores, redes de farmácias e outros clientes.
O desenho também passou por revisões. Entre as propostas estudadas estava um elemento de teto que criava um fluxo visual contínuo no ambiente. A solução foi simplificada para se aproximar da linguagem mais objetiva adotada pela companhia e reduzir a complexidade de execução. O resultado preservou características que Henrique havia observado na China, como ambientes claros, tons neutros e aproveitamento da iluminação natural.

| Henrique Tso durante a inauguração do escritório da Yuwell em São Paulo, que contou com a presença de executivos chineses da companhia e marcou uma nova etapa da operação própria da empresa no Brasil. Foto: Divulgação |
Referências globais e custos locais
A primeira possibilidade considerada para instalar a operação brasileira era alugar um escritório já pronto para uso, em um modelo semelhante ao encontrado em coworkings. A alternativa reduziria as etapas necessárias para colocar a equipe no novo endereço, mas esbarrou na forma como a matriz acompanhava o investimento.
A Yuwell queria receber os custos discriminados: arquitetura, cadeiras, mobiliário, fiação e outros componentes precisavam aparecer separadamente. Em uma solução pronta, essa abertura não estava disponível no nível esperado pela companhia. A decisão foi desenvolver o próprio escritório, com maior visibilidade sobre a composição do investimento.
Com os itens separados, apareceram também diferenças entre as referências de custo da matriz e os valores encontrados no Brasil. Alguns preços locais chamaram a atenção da equipe chinesa; outros aspectos surpreenderam positivamente. Henrique cita a marcenaria como um desses casos, pela qualidade encontrada no mercado brasileiro.
Para avançar nessas decisões, Henrique apresentava à matriz as condições encontradas localmente e levava à equipe responsável pelo projeto as solicitações vindas da China. O custo de cada solução passou, assim, a ser discutido junto com as alternativas disponíveis no Brasil e o resultado esperado para o projeto.

Onze horas de fuso, podem virar um dia adicional na entrega do projeto
Nem todas as diferenças entre as duas operações estavam no desenho, nos fornecedores ou nos custos. A própria dinâmica de trabalho entre Brasil e China interferia na condução do projeto. São 11 horas de diferença entre São Paulo e a matriz chinesa. Quando uma dúvida surgia durante a tarde no Brasil, na China já era madrugada do dia seguinte. Uma definição que dependesse da matriz poderia, portanto, ficar para o próximo ciclo de trabalho, com reflexos sobre decisões de fornecedores, pagamentos ou etapas da obra.
Essa dinâmica exigiu adaptações nos fluxos de aprovação, pagamentos, transferência de recursos e alterações de projeto. Durante a obra, Henrique visitava o espaço semanalmente e preparava relatórios para sua gestora na China, mesmo contando com acompanhamento local da execução.

| O showroom reúne equipamentos comercializados pela Yuwell, entre eles sistemas de monitoramento contínuo de glicose (CGM), medidores de pressão arterial com recursos de voz e sinalização por cores e equipamentos compactos para cuidados respiratórios. Foto: Divulgação |
Investimentos chineses ampliam a presença empresarial no Brasil
O caso ocorre em um momento de ampliação dos investimentos chineses no país. Segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China, os investimentos chineses no Brasil chegaram a US$ 6,1 bilhões em 2025, crescimento de 45% sobre o ano anterior. O país recebeu 10,9% do investimento externo chinês naquele ano e tornou-se o principal destino global desses recursos.
O dado amplia a escala de situações como a encontrada na implantação da Yuwell. À medida que operações internacionais se estabelecem no país, diretrizes definidas globalmente passam a encontrar condições locais de imóveis, custos, fornecedores, contratos, legislação e formas de trabalho. No ambiente construído, essas diferenças deixam de ser apenas culturais quando começam a alterar decisões de projeto e operação.
Para Henrique, a experiência também ampliou sua relação com Facilities. Sua trajetória é predominantemente de Recursos Humanos e ele já havia tido contato com a área em outras companhias. Na Yuwell, porém, assumiu diretamente a implantação e passou a lidar com imóvel, obra, fornecedores e, posteriormente, contratos e manutenção.
Nessa trajetória, sua função acabou se aproximando da de um tradutor entre contextos. De um lado estavam as referências da matriz para padrão, investimento e acompanhamento do projeto. Do outro, as condições encontradas para executar o escritório em São Paulo. Ao longo da implantação, cada diferença precisava chegar a uma decisão: manter uma diretriz, rever uma solução, justificar um custo ou encontrar uma alternativa local.
O caso mostra onde diferenças culturais deixam de ser uma questão abstrata em um projeto internacional. Elas aparecem quando uma referência estética precisa ser revista, quando o orçamento é apresentado de outra forma, quando uma aprovação atravessa 11 horas de fuso ou quando diferentes hábitos e formas de trabalho entram na relação entre as equipes. São essas situações, mais do que a simples reprodução de um padrão global, que acabam definindo como o escritório chega à operação.
Como construímos este material
Esta matéria foi elaborada a partir de entrevista com Henrique Tso, gerente de Recursos Humanos para a América Latina da Yuwell, sobre a implantação do escritório brasileiro da companhia e sua experiência na interlocução entre a matriz chinesa e a execução local. Para ampliar o contexto, foram consultados dados do Conselho Empresarial Brasil-China sobre investimentos chineses no Brasil. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].