Dashboard verde pode esconder risco de incêndio no edifício

Preventivas realizadas e SLA cumprido medem execução, mas podem não revelar falhas críticas, reincidências e sistemas indisponíveis

Dashboard verde pode esconder risco de incêndio no edifício

Indicadores de manutenção podem permanecer positivos mesmo quando falhas críticas reduzem a disponibilidade da proteção contra incêndio. Foto: https://depositphotos.com/br/photo/403839018


Um dashboard de manutenção pode encerrar o mês com bons resultados: preventivas realizadas, chamados atendidos e fornecedor dentro do SLA. Esses indicadores são relevantes para acompanhar a execução do contrato, mas não respondem sozinhos a uma segunda pergunta: em que condição estão os sistemas de proteção contra incêndio?

Uma avaliação publicada pelo Inmetro em 2026 ajuda a entender essa diferença. Entre as ações de fiscalização analisadas pelo instituto de 2016 a 2024, 76,51% identificaram alguma irregularidade relacionada ao serviço de inspeção e manutenção de extintores. O percentual não significa que três em cada quatro extintores do país estejam irregulares: ele se refere aos resultados das fiscalizações realizadas. Como referência, considerando o conjunto de produtos e serviços regulados pelo Inmetro, o índice global de irregularidades informado no mesmo relatório foi de 4,62%.

Ensaios do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), considerados na avaliação do Inmetro, também encontraram reprovações em equipamentos avaliados. Em uma das análises, 68 dos 96 extintores ensaiados, ou 71%, foram reprovados no teste de capacidade extintora 20B. Os resultados são específicos para extintores e não podem ser extrapolados para bombas, sprinklers ou sistemas de detecção. Eles ajudam, porém, a ilustrar a diferença entre registrar que uma atividade foi realizada e verificar o resultado obtido.

Execução e condição são indicadores diferentes
Percentual de preventivas, ordens de serviço fechadas e cumprimento de SLA mostram se atividades previstas foram realizadas e em que prazo. Já indicadores de condição mostram outra dimensão: a existência de anormalidades e sua relevância para a operação.

A diferença aparece na criticidade. Uma preventiva atrasada em um item secundário e uma falha que reduz a disponibilidade de uma proteção podem entrar na mesma lista de pendências, embora tenham consequências diferentes para a operação. Quando o dashboard mostra apenas o volume total, essa distinção pode desaparecer.

Em uma situação hipotética, um painel com 96% de preventivas concluídas pode parecer satisfatório. Mas, se os 4% restantes incluem uma bomba de incêndio indisponível, uma falha reincidente e uma correção aguardando CAPEX há 45 dias, o percentual agregado oferece pouca informação sobre a criticidade das pendências. Indicadores de criticidade, reincidência e tempo de indisponibilidade mostram aspectos que não aparecem na taxa geral de conclusão.

O Decreto Estadual paulista nº 69.118/2024 disciplina a segurança contra incêndios em edificações e áreas de risco. A regularização documental integra esse ambiente de controle, enquanto inspeções, testes e manutenção acompanham as condições dos sistemas ao longo da operação.

Essa distinção evidencia duas informações diferentes: documentação regular e condição operacional são complementares, mas não equivalentes. Uma mostra o atendimento às exigências aplicáveis; a outra retrata o que ocorre com os sistemas durante o uso do edifício.

Quando a indisponibilidade vira informação de gestão
Referências internacionais utilizam o conceito de impairment para situações em que uma proteção contra incêndio fica temporariamente fora de serviço ou com capacidade reduzida. A FM Property Loss Prevention Data Sheet 10-7 considera aspectos como duração e extensão dessa condição.

Na prática, esse tipo de acompanhamento acrescenta contexto ao chamado técnico. Qual sistema foi afetado, desde quando, qual área está envolvida e qual a previsão de retorno à condição normal são informações diferentes do simples registro de uma ocorrência.

A NFPA 25, voltada a sistemas de proteção contra incêndio à base de água, também estabelece procedimentos para situações em que esses sistemas ficam prejudicados.

No dashboard gerencial, a leitura das taxas tradicionais e a leitura das exceções representam dimensões distintas da operação. Proteções críticas indisponíveis, tempo de indisponibilidade, falhas reincidentes e preventivas vencidas em ativos de maior criticidade trazem informações que uma taxa consolidada de execução não necessariamente revela.

SLA mede prazo; reincidência mostra outra dimensão
O mesmo raciocínio aparece na gestão de fornecedores. O Inmetro mantém uma consulta pública de empresas registradas para serviços de inspeção e manutenção de extintores. O registro do prestador e o acompanhamento do resultado do serviço representam camadas diferentes de controle.

Um chamado pode ser atendido dentro do SLA e voltar a ocorrer posteriormente. Por isso, prazo de atendimento e reincidência respondem a perguntas diferentes. Quando uma correção definitiva depende de substituição de equipamento, parada ou CAPEX, a distinção entre uma solução temporária e a correção definitiva acrescenta outra informação sobre a pendência.

Obras e alterações de ocupação acrescentam outra variável. Reformas, novas divisórias ou mudanças de uso podem exigir intervenções nos sistemas existentes. Nesses casos, a condição da proteção passa a atravessar manutenção, projetos e operação durante e depois da intervenção.

Os indicadores tradicionais continuam úteis, mas uma leitura de condição e criticidade acrescenta uma camada diferente ao acompanhamento. Preventivas realizadas mostram o trabalho executado; SLA mostra o atendimento aos prazos; reincidência, indisponibilidade e tempo de resolução revelam onde permanecem exceções. Assim, o “verde” continua tendo valor, mas representa uma dimensão específica da operação, e não necessariamente todas elas.

Como construímos este material
Esta matéria foi elaborada com base em avaliação publicada pelo Inmetro, em ensaios do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), na regulamentação de segurança contra incêndios do Estado de São Paulo e em referências da NFPA e da FM sobre inspeção, manutenção e gerenciamento de indisponibilidades. As fontes foram utilizadas para distinguir indicadores de execução, condição operacional e criticidade, sem extrapolar os resultados específicos dos ensaios de extintores para outros sistemas de proteção contra incêndio. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].


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