Por Léa Lobo

| Foto: Vinicius Messias Possan (Irani), Rodrigo Zanardi e Lídia Moraes (Califórnia) observando a Área de Preservação Permanente (APP) |
Em uma planta industrial, Facilities Management raramente aparece como protagonista aos olhos de quem observa apenas o produto final. Mas basta olhar para a rotina de uma operação fabril para entender que limpeza, segurança, conservação predial, áreas verdes, gestão de terceiros, frota, documentação, apoio aos serviços essenciais e interface com diferentes áreas são peças fundamentais para que a produção aconteça com continuidade, previsibilidade e segurança.
Na Irani Papel e Embalagem S.A., uma das principais indústrias de papel e embalagens sustentáveis no Brasil, essa realidade ganha contornos ainda mais relevantes. A companhia produz papéis para embalagens, chapas e caixas de papelão ondulado, assegurando o fornecimento de produtos de matéria-prima renovável com alta qualidade. Alinhada às boas práticas da economia circular, tem produção integrada às florestas próprias e utiliza energia autogerada. A sustentabilidade, nesse contexto, não aparece apenas como discurso institucional, mas como parte da estratégia do negócio.
É nesse ambiente que atua Vinicius Messias Possan, profissional da área administrativa e de Facilities da Irani, cuja rotina traduz bem a amplitude da função. Em suas palavras, a trajetória em Facilities trouxe como principal aprendizado a capacidade de lidar com “várias situações ao mesmo tempo”, das mais relevantes às menos complexas, sempre com uma visão geral da organização. Essa habilidade, embora muitas vezes invisível, é uma das marcas mais importantes do FM em ambientes industriais, que é o de enxergar a operação como um organismo interdependente, no qual pequenos desvios podem gerar impactos relevantes.
Para Vinicius, em uma indústria, o foco será sempre produzir mais, sem deixar de lado a devida atenção com as pessoas, inovações e melhorias, tendo o objetivo não só de abranger máquinas, mas, também, de melhorar vidas. Por isso, o papel de Facilities é mostrar que atividades de suporte têm importância direta para que a organização alcance seus objetivos de mercado. Uma falha na limpeza, na segurança, no monitoramento de áreas, na conservação ou na gestão de terceiros pode afetar não apenas o clima organizacional, mas também a marca e a percepção de confiabilidade da empresa.
Na prática, isso significa garantir um ambiente limpo, seguro, monitorado e funcional. Segundo Vinicius, cada organização tem sua identidade, mas todas precisam de condições adequadas para operar. Sem esses pilares, a empresa tende a colapsar, e é justamente aí que Facilities se mostra indispensável. Em plantas produtivas complexas, a área deixa de ser apenas operacional e passa a atuar como uma camada de sustentação do negócio.
O desafio da prioridade em uma operação de múltiplas frentes
Na Irani, a gestão de terceiros e a manutenção estão entre as frentes que exigem maior atenção no dia a dia. Para Vinicius, o olhar de FM está justamente na habilidade de definir prioridades. Em uma operação industrial, nem tudo pode ser tratado com o mesmo peso, mas tudo precisa ser acompanhado com critério. Saber o que exige resposta imediata, o que demanda planejamento e o que pode ser tratado dentro de uma rotina estruturada é parte essencial da maturidade da área.
Esse desafio se amplia quando a planta reúne diferentes características operacionais: áreas produtivas, áreas administrativas, circulação de pessoas, serviços terceirizados, conservação de áreas externas, responsabilidades ambientais e interface com equipes internas. Em uma conversa sobre a operação, fica evidente a complexidade do ambiente: a unidade possui uma área extensa, com áreas verdes, APP, lagos, horta, redes elétricas, tubulações, fauna local (capivaras) e compromissos ambientais.
A APP - Área de Preservação Permanente, por exemplo, exige cuidados específicos. Não se trata apenas de jardinagem ou conservação paisagística. Há restrições legais, licenças, compromissos com órgãos ambientais, controle de acesso, recolhimento de folhas e galhos, plantio de mudas, manejo relacionado à presença de capivaras e cuidados voltados ao controle de carrapatos. Esse conjunto de demandas demonstra como Facilities, em uma planta industrial, precisa dialogar com segurança, meio ambiente, manutenção, fornecedores e operação.
Nesse cenário, a clareza de escopo torna-se uma questão estratégica. A conversa entre a Irani e a Califórnia, atual parceira da unidade em serviços de limpeza, evidencia justamente essa preocupação, que é a de entender com precisão o que deve ser feito, por quem, em qual frequência, com quais recursos e com quais indicadores. A Califórnia aparece no contexto como parceira operacional que vem apoiando a estruturação de uma gestão mais orientada por números, registros digitais e melhoria contínua.
Segurança, ESG e conformidade
Em ambientes industriais, segurança das pessoas é um valor inegociável. Para Vinicius, a conexão de Facilities com SSMA, operação e manutenção passam pelas diretrizes internas da organização, pelo cumprimento das orientações e pela gestão de permissões. Qualquer desvio, segundo ele, gera quebra de confiança. Essa afirmação resume um ponto central: em uma operação industrial, Facilities não pode ser sustentado por improviso.
Essa visão também aparece quando o tema é ESG. Na avaliação de Vinicius, as práticas ambientais, sociais e de governança são cada vez mais exigidas pelo mercado, e o acompanhamento do FM tornou-se fundamental. A área atua em conjunto com terceiros, cobra tecnologias, estimula engajamento e desenvolve conhecimento sobre temas ambientais. Ou seja, Facilities deixa de ser apenas executor de rotinas e passa a contribuir para metas corporativas mais amplas.
Na Irani, essa agenda encontra aderência natural com o posicionamento institucional da companhia, que declara o propósito de transformar a vida das pessoas com atitudes e soluções sustentáveis. A empresa incorpora sustentabilidade à estratégia de negócios, equilibrando governança corporativa, inovação, desenvolvimento econômico, responsabilidade social e gestão ambiental.
Quando esse compromisso chega ao chão da operação, ele se traduz em decisões concretas: destinação adequada de resíduos, gestão de áreas verdes, controle de insumos, atenção ao uso de água e energia, cumprimento de licenças, segurança nas atividades e relacionamento responsável com fornecedores e equipes. Em outras palavras, ESG também passa pelo Facilities.
Tecnologia como apoio à gestão
Outro ponto destacado por Vinicius é o avanço do uso de ferramentas digitais e indicadores. Internamente, a Irani conta com áreas como contabilidade, que apoiam a análise por meio de Power BI, enquanto os terceiros são cobrados a apresentar tecnologias que auxiliem na gestão operacional. No caso da Califórnia, os registros digitais de limpeza têm contribuído para informações mais precisas, retorno ágil sobre ocorrências e direcionamento da atenção para onde ela realmente é necessária.
A próxima etapa citada por Vinicius é a utilização de robôs de poda em áreas verdes, com o objetivo de trazer mais agilidade e produtividade, inclusive em regime de operação contínua. A inovação, nesse caso, não é tratada como substituição pura e simples de pessoas, mas como uma forma de reorganizar o trabalho, ampliar produtividade, reduzir esforço manual e liberar equipes para atividades que exigem maior sensibilidade, análise e presença humana.
Durante a conversa, o CEO da Califórnia, Rodrigo Zanardi, também apresentou a lógica de sua ferramenta Live Facilities, voltada ao acompanhamento de rotinas, auditorias, indicadores e áreas críticas. A proposta é permitir que cliente e prestador tenham acesso simultâneo às informações, reduzindo subjetividades e criando uma gestão mais transparente. A partir desse tipo de controle, torna-se possível identificar se uma rotina foi executada, em qual horário, com qual resultado e em que ponto há necessidade de correção.
Esse movimento aponta para uma tendência cada vez mais forte no setor, de que o FM industrial precisa ser mensurável. Como resume Vinicius, “sem números não há controles”. A frase reforça uma mudança importante na forma de gerir Facilities. A experiência prática continua essencial, mas ela ganha força quando apoiada por dados, indicadores e processos claros.
O valor do relacionamento humano
Apesar da tecnologia, Vinicius chama atenção para uma competência que considera indispensável, que é o relacionamento com pessoas. Para profissionais que desejam crescer em Facilities, ele destaca conhecimento em ferramentas digitais, atenção às novas estratégias de mercado e, principalmente, relacionamento. “Nada é mais importante que o relacionamento”, afirma.
Essa visão aparece com força em sua forma de conduzir a operação. Ao falar sobre equipes terceirizadas, Vinicius demonstra uma compreensão madura sobre as dificuldades da mão de obra, a importância da empatia e a necessidade de avaliar situações com equilíbrio. Em vez de olhar apenas para faltas, pausas ou desvios pontuais, ele considera o histórico, a confiança construída e o contexto de cada profissional.
Essa dimensão humana é especialmente importante em Facilities porque a área vive de interfaces. É preciso conversar com fornecedores, ouvir equipes, responder à liderança, negociar prioridades, acolher demandas, dizer “não” quando necessário e resolver problemas que muitas vezes não têm dono claro. Em suas palavras, Facilities muitas vezes acaba recebendo aquilo que outras áreas não querem fazer. A diferença está em transformar esse lugar de pressão em uma posição de valor para o negócio.
Facilities como área estratégica da operação industrial
A atuação de Facilities na Irani mostra que, em uma planta industrial, a área não pode ser vista apenas como apoio. Ela é parte da engrenagem que garante continuidade, segurança, conformidade e eficiência. Quando bem estruturada, contribui para reduzir riscos, melhorar a experiência das pessoas, apoiar a produtividade e fortalecer a imagem da empresa.
Para Vinicius, não há mais espaço para o “jeitinho”. A atuação do FM deve ser pautada por segurança, responsabilidade ambiental e excelência na execução das demandas. Essa visão sintetiza o amadurecimento de uma área que, historicamente, foi associada a resolver problemas de bastidor, mas que hoje ocupa papel cada vez mais estratégico nas organizações.
Na Irani, esse amadurecimento aparece na busca por indicadores, na incorporação de tecnologia, na gestão de terceiros, no cuidado com áreas ambientais, na preocupação com pessoas e na construção de relações de confiança com parceiros como a Califórnia. Mais do que manter a planta funcionando, Facilities ajuda a criar as condições para que a indústria produza com segurança, responsabilidade e visão de futuro.
Parceiro operacional
Na operação da Irani, a Califórnia Serviços atua como parceira na frente de limpeza e manutenção de áreas verdes, apoiando a rotina de Facilities em um ambiente industrial que exige segurança, previsibilidade e controle. Com trajetória de mais de seis décadas no mercado, a empresa vem incorporando ferramentas digitais à gestão dos serviços, permitindo maior rastreabilidade das atividades, acompanhamento de rotinas e acesso a indicadores operacionais.
Na prática, esse modelo contribui para que o gestor de Facilities tenha informações mais precisas sobre a execução dos serviços, identifique pontos de atenção com mais agilidade e direcione esforços para as áreas críticas da planta. A proposta está alinhada a uma tendência crescente no setor, que é o de transformar serviços de apoio em operações mais mensuráveis, transparentes e orientadas por resultado.