
Por trás de toda operação eficiente de aquecimento, ventilação, ar-condicionado e refrigeração (AVACR) existe um fator pouco celebrado, mas absolutamente determinante: a qualidade e o controle da água. Em muitos empreendimentos, a água ainda é tratada como um detalhe operacional, e esse é justamente o erro que encarece o sistema, acelera falhas, reduz a vida útil de ativos e, em casos mais críticos, amplia riscos sanitários. Essa é a principal provocação do eBook produzido pelo Departamento Nacional de Tratamento de Águas (DNTA) da ABRAVA, que reúne uma coletânea de artigos técnicos sobre os impactos diretos do tratamento de água em sistemas de resfriamento e climatização, com temas como reúso, corrosão microbiológica, incrustação, biofilmes e até o risco relacionado à Legionella.
O material reforça uma ideia que deveria estar estampada na agenda de todo facility manager e gestor de operações prediais: tratamento de água não é um “apêndice” do sistema de AVACR. É parte estrutural da performance. Na prática, a água funciona como um organismo circulante da instalação. Se estiver desequilibrada, todo o ecossistema sofre. O que costuma acontecer, porém, é que os impactos aparecem de forma silenciosa e acumulativa. Dificilmente alguém registra no orçamento: “gasto extra por água mal tratada”. Esse custo, na realidade, se disfarça na elevação do consumo energético, em limpezas corretivas recorrentes, paradas não programadas, troca antecipada de componentes e perda progressiva de eficiência térmica. É o que se pode chamar de “custo fantasma”, e ele é caro.
Entre os principais problemas apontados no eBook estão corrosão, incrustação e biofilmes. A corrosão aparece não apenas como um processo químico, mas também como um fenômeno fortemente associado à atividade microbiológica. O texto que aborda a corrosão microbiológica (MIC) destaca que, nas últimas décadas, microrganismos e colônias bacterianas passaram a ser reconhecidos como agentes relevantes na degradação acelerada de estruturas e equipamentos. Esse tipo de corrosão compromete tubulações, trocadores, superfícies metálicas e componentes críticos, além de ampliar o risco de vazamentos, contaminações e instabilidade no sistema. A combinação de umidade, temperatura favorável e presença de nutrientes transforma o circuito em um ambiente propício para que o problema avance, especialmente em sistemas com baixa governança de tratamento.
A incrustação, por sua vez, também não é um “mal menor”. Ao formar depósitos minerais sobre superfícies internas, a troca térmica se torna mais difícil e o equipamento precisa trabalhar mais para gerar o mesmo resultado. Ou seja: incrustação tem tradução direta em conta de energia e perda de eficiência. Já os biofilmes representam uma camada ainda mais insidiosa: são formações orgânicas que funcionam como isolantes térmicos, favorecem a proliferação microbiológica e degradam a performance. Em operações que já enfrentam pressão por redução de custos e metas ESG, esse tipo de desperdício técnico vira um contrassenso.
O eBook também trata de um tema que tem ganhado protagonismo nas discussões sobre sustentabilidade em edifícios: o aproveitamento da água condensada gerada por aparelhos e sistemas de ar-condicionado. À primeira vista, o uso do condensado parece uma solução perfeita: trata-se de uma água com aparência limpa, gerada naturalmente no processo de climatização e que, dependendo do porte do empreendimento, pode representar volumes significativos. O material menciona que esse reaproveitamento pode reduzir o uso de água potável, especialmente em aplicações como reposição de torres de resfriamento, e reforça que, em mercados com água cada vez mais cara, com citações de valores elevados por metro cúbico, a economia pode ser concreta.
Mas o documento também joga luz na “pegadinha técnica” que muitos ignoram: condensado não é automaticamente seguro para uso em torre. Apesar de ter características próximas à água destilada, ele pode apresentar pH ácido e sofrer contaminações conforme o ambiente, os dutos e as condições do ar. Quando introduzido sem critérios de controle, pode acelerar processos corrosivos ou contribuir para problemas microbiológicos. Em outras palavras, a água condensada é uma oportunidade real de sustentabilidade e eficiência econômica, mas não pode ser tratada como improviso verde. Ela precisa entrar no sistema como água de processo: com análise, especificação e monitoramento.
O mesmo raciocínio vale para o reúso. O eBook coloca o reúso de água no centro da estratégia de resiliência hídrica, sobretudo em sistemas com torre, que demandam reposição por perdas de evaporação, purgas e arraste. Com a crise hídrica consolidada como cenário recorrente e o aumento da pressão regulatória e social sobre o consumo consciente, o reúso deixa de ser alternativa e passa a ser caminho inevitável para muitas operações. A publicação reforça que essas ações precisam ser conduzidas com responsabilidade técnica, com programas customizados e acompanhamento especializado. O objetivo não é apenas economizar água, mas garantir que o reúso não comprometa segurança, eficiência e durabilidade dos equipamentos.
No contexto do AVACR, um dos pontos mais sensíveis do debate envolve riscos sanitários. O eBook cita conteúdos específicos relacionados à Legionella, tema que há anos mobiliza discussões internacionais por estar associado a sistemas com água e dispersão de aerossóis, como torres de resfriamento. Mesmo quando não há ocorrência, o simples fato de existir risco potencial coloca o assunto em outro patamar de responsabilidade. Isso muda o jogo para facilities: não se trata apenas de proteger equipamentos ou reduzir consumo. Trata-se também de mitigar risco humano, reputacional e de compliance. Dependendo do segmento, sejam hospitais, hotéis, shoppings ou grandes edifícios corporativos, o impacto de uma falha pode ultrapassar a fronteira técnica e atingir a imagem da organização.
É nesse ponto que o eBook, de forma indireta, reposiciona o papel do facility management. O gestor de facilities não pode mais ser visto como alguém que apenas reage a falhas, gere contratos ou supervisiona rotinas. Ele é, cada vez mais, o guardião da performance, da sustentabilidade e da segurança em ambientes complexos. E no AVACR, isso passa inevitavelmente por água. Quem domina essa pauta ganha vantagem competitiva, reduz vulnerabilidades, melhora indicadores e opera com previsibilidade.
A mensagem é que não existe operação predial moderna com governança frágil de água. A água não é um detalhe, é a linha invisível que separa eficiência e desperdício, estabilidade e parada, longevidade e desgaste acelerado. O eBook da ABRAVA/DNTA reforça que a qualidade da água decide o desempenho do AVACR, influenciando diretamente energia, manutenção, confiabilidade e riscos. E se há algo que o setor precisa entender com urgência é que, quando a água está fora de controle, o sistema inteiro está fora de controle.
Para acesso à íntegra do documento, solicite no e-mail: [email protected] ou acesse www.abrava.com.br