Por Léa Lobo

Quando um Head de FM deixa de apoiar e passa a liderar valor
Com certificação LEED Platinum 4.1, uso estratégico de inteligência artificial e resultados concretos em eficiência operacional, a Localiza&Co mostra como Facilities Management pode deixar de ser apoio silencioso para se tornar peça central na geração de valor para o negócio.
Na Localiza&Co, a área de Facilities Management deixou de ser vista apenas como suporte operacional e passou a ocupar um lugar muito mais decisivo na engrenagem do negócio. Sob a liderança de Douglas Tcharles, Head de Facilities e Manutenção, lotado na diretoria de Suprimentos, a companhia vem combinando governança, inteligência artificial, eficiência operacional e agenda ESG para capturar resultados mensuráveis, melhorar a experiência do usuário e fortalecer a reputação corporativa.
O caso mais emblemático dessa virada é a recertificação do edifício-sede de Belo Horizonte em LEED Platinum v4.1, colocando o empreendimento entre os 18 edifícios mais eficientes do Brasil nesse padrão e como o único de Minas Gerais nesse patamar, segundo relato do executivo à InfraFM.
O prédio vira ativo estratégico
O edifício-sede da Localiza&Co, em Belo Horizonte, ajuda a dimensionar a relevância do desafio. O complexo reúne cerca de 63 mil m², com 18 mil m² de área verde, praça de convivência e infraestrutura tecnológica voltada à nova experiência de uso dos espaços. Hoje, segundo Douglas, o prédio opera com aproximadamente 86% da sua capacidade, o que mostra um nível de ocupação já bastante elevado.
Nesse contexto, Facilities não cuida apenas da operação cotidiana. Cuida de performance, ambiência, produtividade, jornada do colaborador e capacidade futura de expansão, e aparece também na forma como a área se organiza.
Douglas afirma que o trabalho está sustentado em quatro pilares internos, ligados a gente, cliente, resultados extraordinários e atitude de dono. Na prática, isso significa uma área engajada a fazer mais com menos, sem perder qualidade de entrega. E os números apresentados por ele ajudam a explicar por que Facilities passou a ser percebida como alavanca de valor e não apenas como centro de custo.
Em 2025, considerando cinco prédios sob sua gestão, a área entregou OPEX 6,8% abaixo do planejado, sem deteriorar a percepção dos usuários e da infraestrutura. Ao contrário. O NPS global de Facilities chegou a patamares de excelência, cenário que o executivo classifica como recorde interno e situado no mais alto patamar de excelência.
IA e tecnologias
Num mercado em que muitas operações ainda tropeçam no básico, esse resultado fala alto. Reduzir custo já é difícil. Reduzir custo mantendo o encantamento do cliente interno é outro jogo. Com apoio de uma plataforma de inteligência artificial para saneamento de cadastros e governança de SKUs (unidade de controle de estoque) em escala nacional, a Localiza&Co obteve, entre março e dezembro, um resultado de eficiência extraordinário, com a unificação de cerca de 350 SKUs. Não se trata de um uso cosmético de IA. Trata-se de aplicação direta para captura de savings, ganho de padronização e melhoria da governança operacional. É IA com cheiro de resultado, não de apresentação bonita em PowerPoint.
Douglas relata que a inteligência artificial passou a ser meta efetiva para o time, do menor aprendiz às lideranças. A empresa conta com suporte da universidade corporativa e vem testando aplicações práticas para automação de rotinas, controle de notas, disparos automáticos para fornecedores e desenvolvimento de um assistente virtual capaz de responder dúvidas sobre políticas internas dos prédios, reservas de espaços, eventos e normas de uso. O ganho esperado é claro. Mais produtividade, menos atrito e menos tempo desperdiçado com demandas repetitivas.
Ele percebe interesse crescente de pares e fornecedores pelo uso de IA em Facilities, mas entende que boa parte das iniciativas ainda está em estágio embrionário. Mesmo assim, o movimento já começou, e quem continuar tratando tecnologia apenas como acessório corre o risco de ficar para trás. Em operações complexas, prédio que não “fala” com a gestão vira prédio opaco, caro e lento.
LEED Platinum 4.1
A certificação LEED é concedida pelo U.S. Green Building Council e, na versão v4.1 para Operations and Maintenance, foi desenhada para edifícios já ocupados e em operação há pelo menos um ano, com foco em desempenho real da operação e não apenas em intenções de projeto.
Para atingir o nível Platinum, o empreendimento precisa alcançar 80 pontos ou mais dentro do sistema de pontuação do LEED. A auditoria considerou sete frentes principais, desdobradas em 22 critérios, incluindo localização e transporte, espaços sustentáveis, eficiência no uso da água, energia e atmosfera, materiais e recursos, qualidade ambiental interna e inovação. Esse conjunto ajuda a entender por que a certificação tem tanto peso. Ela exige consistência operacional, controle de processos, monitoramento contínuo e capacidade de engajar toda a comunidade do edifício, incluindo usuários e terceirizados. Não é selo de fachada. É disciplina de gestão.
Para exemplificar, Douglas destaca um ponto central que muita gente ainda subestima: a conscientização da população do prédio sobre segregação de resíduos. Pode parecer detalhe, mas não é. Em certificações de alta exigência, o comportamento cotidiano das pessoas interfere diretamente no desempenho ambiental do ativo. Se o resíduo vai para a destinação errada, o impacto é imediato. A cultura operacional passa a ser tão importante quanto a infraestrutura.
Além disso, ele gerencia continuamente para sustentar a certificação e a governança do edifício. Entre eles estão a política de manutenção e reforma das instalações, a gestão dos vetores energéticos, especialmente água e energia, e o acompanhamento rigoroso da cadeia de refrigeração, com forte controle sobre manutenção preventiva, corretiva, filtros, saturação e performance dos equipamentos. Em resumo, ESG sério não mora em campanha. Mora em rotina, dados, reuniões de acompanhamento e fornecedor sendo cobrado de perto.
Uma liderança com trajetória
A trajetória de Douglas dentro da companhia acompanha a própria transformação de Facilities na organização. Com quase dez anos de Localiza&Co e cerca de 20 anos de experiência em Facilities e hotelaria hospitalar, o executivo foi recentemente reconhecido no programa anual de liderança da empresa, ficando entre os cinco líderes de maior destaque entre aproximadamente 2 mil líderes espalhados pelo Brasil. O reconhecimento, segundo ele, refletiu não apenas desempenho individual, mas também a entrega consistente da equipe e a aderência à cultura organizacional.
Douglas associa sua evolução à autonomia recebida para tomar decisões, ao estímulo constante para sair da zona de conforto e ao entendimento de que áreas de suporte precisam conhecer profundamente o negócio para ajudá-lo a crescer. É uma visão madura e certeira. Facilities estratégico não é o que apenas mantém a operação funcionando. É o que entende para onde a empresa vai e prepara o terreno para que ela chegue lá melhor, mais rápido e com menos desperdício.
Outro ponto que aparece com força na fala de Douglas é a convicção de que não existe Facilities estratégico sem gente preparada. Ao projetar o futuro da área, ele deixa claro que a capacitação da equipe será decisiva para tornar os profissionais cada vez mais analíticos, conectados ao negócio e aptos a assumir um papel menos operacional e mais consultivo dentro da organização. Nesse processo, a Universidade Corporativa da Localiza&Co surge como uma aliada importante, oferecendo trilhas de aprendizado que ajudam a sustentar essa evolução. Douglas também reforça seu compromisso pessoal com o desenvolvimento do time, acompanhando de perto feedbacks, planos de desenvolvimento individual e oportunidades de formação, numa postura que revela uma liderança atenta não apenas à entrega, mas ao crescimento real das pessoas.
O recado que esse case mostra com nitidez é uma mudança de era. Facilities já não pode mais aceitar o papel de área invisível, lembrada apenas quando algo falha. Quando bem estruturada, com dados, tecnologia, governança e visão de negócio, a função passa a gerar savings concretos, sustentar metas ESG, elevar experiência, proteger reputação e ajudar a empresa a performar melhor. É exatamente por isso que o LEED Platinum 4.1 conquistado pela sede em Belo Horizonte vale mais do que um troféu técnico. Ele simboliza a maturidade de uma gestão que entendeu que edifício eficiente não é luxo. É estratégia.