O próximo gargalo da economia digital são os ativos físicos?

Estudo da Agência Internacional de Energia indica que a expansão da inteligência artificial amplia a importância da infraestrutura energética e coloca ativos físicos no centro da economia digital

Por Redação

O próximo gargalo da economia digital são os ativos físicos?

Foto: https://depositphotos.com/br/photos/53949215


A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma revolução construída sobre algoritmos, modelos generativos e capacidade de processamento. A imagem é quase sempre digital: plataformas, chips, automação, ganhos de produtividade e novas formas de trabalho. Mas a pressão recente sobre o consumo de energia das grandes empresas de tecnologia revela outra camada dessa corrida. Antes de chegar ao usuário final, a IA precisa passar por edifícios, redes elétricas, sistemas de climatização, subestações, contratos de energia e ativos preparados para operar sem interrupção.

O relatório Energy and AI, da Agência Internacional de Energia (IEA), ajuda a dimensionar essa discussão. Mais do que estimar o consumo elétrico dos data centers, o estudo mostra como a expansão da IA começa a aproximar dois universos que muitas vezes foram tratados separadamente: tecnologia e infraestrutura física.

Segundo a IEA, os data centers consumiram cerca de 415 TWh de eletricidade em 2024, o equivalente a aproximadamente 1,5% da demanda mundial. A projeção é que esse consumo ultrapasse 945 TWh até 2030, impulsionado principalmente pela inteligência artificial e pela expansão dos serviços digitais. O volume impressiona, mas o principal alerta do estudo está em outro aspecto. O crescimento ocorre de forma acelerada e concentrada em determinadas regiões, pressionando sistemas elétricos locais e exigindo investimentos robustos em geração, transmissão e distribuição de energia.

O relatório ressalta que grandes centros de processamento de dados podem consumir energia equivalente à de centenas de milhares de residências e que as maiores instalações atualmente em construção deverão operar em uma escala muito superior à observada até aqui. A consequência é uma disputa crescente por capacidade elétrica, especialmente nas regiões que concentram novos investimentos em infraestrutura digital.

O gargalo deixa de ser tecnológico
A economia digital sempre encontrou seus maiores desafios na evolução da capacidade computacional. A leitura da IEA indica que esse eixo começa a mudar. Em diversos mercados, o desafio já não é desenvolver processadores mais potentes, mas garantir que novos empreendimentos consigam acessar energia suficiente para entrar em operação.

O estudo estima que cerca de 20% dos projetos previstos para novos data centers podem enfrentar atrasos devido às limitações da infraestrutura elétrica. Filas para conexão às redes, disponibilidade de transformadores, expansão da transmissão e capacidade de geração aparecem como fatores capazes de comprometer cronogramas de investimento. Nesse contexto, a infraestrutura deixa de acompanhar a inovação e passa a definir seu ritmo.

Essa percepção também aparece no relatório Global Data Center Trends 2025, da CBRE. O estudo identifica a disponibilidade de energia como um dos principais limitadores para a expansão de data centers em diversos mercados globais. Segundo a consultoria, a demanda impulsionada pela inteligência artificial continua superando a oferta de infraestrutura, levando operadores e investidores a buscar novas localidades capazes de oferecer capacidade elétrica suficiente para suportar empreendimentos de grande escala. Esse fator passa a influenciar não apenas o mercado de data centers, mas também decisões relacionadas à localização de novos ativos e investimentos imobiliários.

Energia deixa de ser apenas um custo operacional
Essa mudança também redefine o papel da energia dentro das organizações. Tradicionalmente associada à eficiência operacional e ao controle de custos, ela passa a influenciar decisões sobre localização de investimentos, continuidade dos negócios, capacidade de expansão e competitividade.

O próprio relatório Energy and AI observa que países capazes de oferecer fornecimento elétrico confiável, competitivo e sustentável estarão mais bem posicionados para atrair investimentos em infraestrutura digital. Não se trata apenas de produzir mais energia, mas de garantir disponibilidade, qualidade e rapidez na conexão de novos consumidores.

Para gestores responsáveis por edifícios corporativos, instalações industriais e ativos imobiliários, essa realidade amplia a importância de temas como modernização de subestações, qualidade dos sistemas elétricos, automação predial, gestão de utilidades e eficiência dos sistemas de climatização.

Os reflexos chegam além dos data centers
Embora o crescimento dos data centers seja o principal motor dessa discussão, os impactos tendem a ultrapassar esse segmento. O aumento da demanda por energia e a necessidade de maior resiliência operacional influenciam projetos de retrofit, expansão de parques corporativos, desenvolvimento de condomínios logísticos e até estratégias de ocupação de edifícios.

Essa pressão tende a chegar também aos edifícios corporativos, parques industriais e condomínios logísticos, que precisarão operar com maior eficiência energética e maior capacidade de adaptação às novas demandas digitais.

Ao mesmo tempo, cresce o interesse por tecnologias capazes de reduzir consumo energético e aumentar a flexibilidade operacional. Soluções de automação, monitoramento em tempo real, gestão inteligente da climatização e armazenamento de energia passam a ganhar relevância não apenas como iniciativas de eficiência, mas como instrumentos para ampliar a capacidade operacional dos ativos.

Os desafios operacionais também aparecem no relatório Uptime Institute Global Data Center Survey 2025. O levantamento aponta que operadores de infraestrutura digital convivem com restrições crescentes relacionadas à disponibilidade de energia, ao aumento da densidade de potência exigida pelas cargas de IA, aos atrasos na cadeia de suprimentos e à pressão por maior eficiência operacional. O estudo mostra que a expansão dos data centers deixou de depender apenas de investimentos em tecnologia e passou a exigir uma infraestrutura física capaz de acompanhar esse crescimento.

A própria IEA destaca que a inteligência artificial também pode contribuir para otimizar sistemas energéticos, aumentar a eficiência de edifícios, melhorar a gestão das redes elétricas e reduzir desperdícios. O desafio, portanto, não está apenas em fornecer energia para a IA. Infraestrutura e inteligência artificial deixam de evoluir em paralelo e passam a depender uma da outra. Para gestores de facilities, property e infraestrutura, essa relação tende a influenciar investimentos, operação e competitividade nos próximos anos.

Como construímos este material
Esta matéria foi desenvolvida a partir do relatório Energy and AI, da Agência Internacional de Energia (IEA), complementado pelo relatório Global Data Center Trends 2025, da CBRE, e pela pesquisa Uptime Institute Global Data Center Survey 2025. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].


Veja mais conteúdos

Conteúdos que gostaríamos de sugerir para a sua leitura.
Data centers entram de vez na agenda estratégica de FM

Expansão da IA, demanda por energia, eficiência operacional e infraestrutura crítica aproximam o setor de data centers do universo de FM, abrindo uma nova trilha de conteúdo, relacionamento e benchmarking para gestores

Pequenos data centers próprios voltam ao radar das empresas

Empresas não estão recriando grandes data centers internos por nostalgia do “CPD”, mas buscando controle, baixa latência, soberania de dados e continuidade operacional em um mercado brasileiro de data centers que cresce rápido, mas enfrenta gargalos de energia, conexão, água e mão de obra

Líderes de audiência

Mercado

Woba lança agentes de IA para gestão imobiliária corporativa e aposta em nova fase do workplace

Plataforma apresentada durante a Expo InfraFM promete apoiar decisões ligadas a custos, operação e experiência dos colaboradores por meio de inteligência artificial aplicada ao real estate corporativo

Mercado

Congresso InfraFM 2026 começa com imersões em operações de referência

Primeiro dia do Congresso InfraFM foi marcado por visitas técnicas em empresas e operações de diferentes segmentos, proporcionando aos participantes uma visão prática sobre gestão de infraestrutura, manutenção, tecnologia, segurança, sustentabilidade e eficiência operacional

AstraZeneca traduz crescimento, bem-estar e brasilidade em novo escritório em São Paulo

Com 2.300 m² na Torre Jatobá, o novo escritório da AstraZeneca em São Paulo foi projetado para apoiar o modelo híbrido, priorizando colaboração, sustentabilidade, acessibilidade e bem-estar dos colaboradores, com elementos de brasilidade e gestão por

Operações

Perder o prazo do LEED pode adiar certificações estratégicas até 2027

Cronograma do GBCI mostra que projetos que buscam certificação antes da Greenbuild ou até o fim do ano precisam antecipar documentação, pagamento e análise técnica

Sugestões da Redação

Mercado

Real Estate em 2026. O que orienta a escolha entre ocupar, adaptar ou investir?

Relatório da JLL mostra como a redução da oferta de novos empreendimentos valoriza ativos de alta qualidade no mercado imobiliário global

Outside Work

Em 2026, sua casa terá um "CPF". Entenda o que é o Cadastro Imobiliário Brasileiro e como ele afe...

Um novo cadastro nacional vai reorganizar a forma como o Estado enxerga os imóveis no Brasil. A partir de 2026, essa mudança começa a impactar impostos, transações e a gestão patrimonial

Revista InfraFM

Quando saúde mental, liderança e Workplace viram estratégia de negócio

De Harvard a Oxford, passando por CEOs que já transformam lucro em bem-estar: Mind Summit mostra que o futuro das organizações não é sobre espaços para trabalhar, e sim sobre espaços que libertam o melhor das pessoas. Facilities & Workplace entram no centro da estratégia corporativa

Revista InfraFM

O engenheiro que também aprendeu a cuidar de prédios vivos

A arquitetura humana e tecnológica dos campi do Insper integra educação, convivência e networking

Revista InfraFM

O futuro já começou. Quem vai gerenciá-lo?

Projetando a sociedade do futuro para as nossas vidas

Revista InfraFM

Azul por dentro da operação que faz o Brasil voar

Infraestrutura que trata o avião como cliente e formação que sustenta a excelência operacional da companhia aérea