Mobilidade global: o que muda quando as pessoas passam a trabalhar entre países?

Relatório da KPMG mostra que empresas estão revendo políticas de deslocamento, trabalho remoto internacional e experiência dos colaboradores, uma agenda que também afeta escritórios, contratos, serviços e gestão de espaços no Brasil

Por Redação

Mobilidade global: o que muda quando as pessoas passam a trabalhar entre países?

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O maior desafio das áreas de mobilidade global não é mais apenas controlar custos. Segundo o 2025 KPMG Global Mobility Benchmarking Report, 31% dos líderes da área apontam a demonstração de retorno sobre investimento como principal preocupação, enquanto a gestão de custos caiu de 39% em 2024 para 18% em 2025. O dado mostra uma mudança de foco: empresas querem entender não só quanto custa deslocar pessoas, mas que valor esses deslocamentos geram para o negócio.

Essa virada torna a mobilidade corporativa mais relevante para áreas que lidam diariamente com espaços, serviços, viagens, contratos e experiência do colaborador. Dependendo da estrutura da empresa, essa agenda pode envolver Recursos Humanos, Facilities, Viagens Corporativas, Jurídico, Fiscal e Serviços Corporativos. O relatório da KPMG indica que mobilidade deixou de significar apenas expatriações, vistos e obrigações tributárias. Passou a envolver acesso a talentos, suporte a projetos internacionais, trabalho remoto entre países, tecnologia, conformidade e eficiência operacional.

O estudo ouviu 456 profissionais de mobilidade global em 29 países e 12 setores. Segundo a KPMG, líderes da área esperam que o valor estratégico dos programas de mobilidade suba de 6,0 para 7,1, em uma escala de 0 a 10, nos próximos 12 a 18 meses.

No Brasil, a discussão ganha relevância em um contexto no qual multinacionais operam com equipes distribuídas, profissionais viajam com frequência entre escritórios, empresas ajustam políticas híbridas e o país também passou a regulamentar o visto para nômades digitais.

O que é mobilidade global
Mobilidade global é a gestão de profissionais que trabalham, viajam ou são deslocados entre países por motivos corporativos. A agenda inclui expatriações, viagens frequentes, transferências temporárias, contratações internacionais, trabalho remoto em outro país, vistos, impostos, folha de pagamento, benefícios, moradia, apoio familiar, segurança e conformidade com regras locais.

O relatório da KPMG mostra uma mudança de papel. A mobilidade passa a ser tratada como instrumento para acessar talentos onde eles estão, apoiar projetos em diferentes mercados e dar flexibilidade às empresas sem perder controle sobre risco, custo e experiência.

Para quem administra espaços corporativos, essa discussão importa porque a mobilidade de pessoas altera a ocupação dos escritórios, a demanda por estações temporárias, salas de reunião, serviços de recepção, segurança, tecnologia, contratos de hospedagem, transporte, coworking e suporte ao colaborador em deslocamento.

O relatório mostra uma virada para valor e resultado
Um dos dados centrais do estudo é a mudança de prioridade. Em 2024, 39% das organizações apontavam gestão de custos como prioridade. Em 2025, esse percentual caiu para 18%. Ao mesmo tempo, o principal desafio passou a ser demonstrar retorno sobre investimento, citado por 31% dos respondentes.

Essa mudança é importante. As empresas não deixaram de olhar custo, mas passaram a cobrar evidências de valor. A pergunta deixou de ser apenas quanto custa deslocar um profissional e passou a incluir que resultado essa mobilidade gera para o negócio, que projeto ela viabiliza, que talento ela ajuda a reter e que risco ela evita.

Para o mercado brasileiro, essa leitura conversa com uma realidade comum em grandes empresas: deslocamentos entre unidades, viagens de executivos, projetos em diferentes estados, equipes globais e uso eventual de espaços corporativos por profissionais que não estão alocados permanentemente naquele endereço.

Políticas mais flexíveis aumentam a complexidade da operação
A KPMG aponta que 42% das empresas fizeram uma revisão completa de suas políticas de mobilidade no último ano, enquanto 32% pretendem atualizá-las nos próximos 12 a 18 meses. Entre as prioridades estão necessidades das unidades de negócio, competitividade externa, custos, boas práticas e atração de talentos.

O estudo também mostra que 52% das organizações já permitem pedidos de trabalho remoto internacional de curta duração, como workations de até 30 dias por ano. Outras 23% aceitam modelos permanentes, incluindo realocação e contratação de profissionais no exterior.

Essa flexibilidade tem efeitos diretos sobre a operação. Quando profissionais passam a trabalhar temporariamente de outras cidades ou países, aumentam as exigências sobre segurança da informação, suporte remoto, acesso a sistemas, políticas de viagem, reembolso, benefícios, seguros, espaços de apoio e integração com times locais.

No Brasil, onde muitas empresas ainda estão ajustando seus modelos híbridos, a mobilidade internacional adiciona uma camada de complexidade. Não se trata apenas de permitir que alguém trabalhe fora do escritório. É preciso saber onde a pessoa está, por quanto tempo, sob qual regra tributária, com que suporte, em qual espaço de trabalho e com quais riscos para a empresa.

Dados ainda são um gargalo
O relatório revela um ponto sensível: 72% das organizações ainda dependem principalmente de planilhas para relatórios e análises de mobilidade. Apenas 16% utilizam ferramentas analíticas como Microsoft Power BI ou Salesforce Tableau.

Entre os principais obstáculos para avançar em análise de dados, 55% citam informações espalhadas em múltiplos sistemas, 55% apontam restrições de custo, 44% mencionam falta de habilidades analíticas, 43% relatam problemas de integridade dos dados e 36% indicam necessidade de tecnologia de suporte.

Esse diagnóstico é familiar para áreas de operação predial e facilities. Muitas empresas também enfrentam dificuldades para consolidar dados de ocupação, chamados, manutenção, energia, acesso, reservas de salas e contratos de fornecedores. Quando mobilidade, workplace e operação trabalham com bases desconectadas, a empresa perde capacidade de planejar espaços, prever demanda e medir custos reais.

Inteligência artificial entra na mobilidade corporativa
A KPMG mostra que 43% das organizações já usam AI para apoiar tarefas operacionais ou pontuais em mobilidade global. Outros 19% ainda não utilizam, mas pretendem adotar a tecnologia em até um ano. Além disso, 62% planejam investimentos em tecnologia nos próximos 12 a 18 meses.

Entre os usos previstos, 59% querem automatizar tarefas administrativas, 47% pretendem aplicar AI em cálculos complexos, como projeções de custo e reconciliação de folha, 46% avaliam usar a tecnologia para recomendações de programas e pacotes de realocação, e 39% consideram assistentes virtuais para apoiar o negócio.

Para operações corporativas, o ponto central não é a tecnologia em si, mas a qualidade dos dados que alimentam essas ferramentas. Sem informações confiáveis sobre custos, contratos, ocupação, deslocamentos e demanda por serviços, a automação tende a reproduzir problemas existentes em escala maior.

Experiência do colaborador vira métrica de mobilidade
Outro dado relevante do estudo está na experiência dos profissionais. Apenas uma em cada quatro empresas afirma acompanhar de forma consistente a satisfação dos colaboradores em programas de mobilidade. Ao mesmo tempo, 80% dizem agir com base nos insights recebidos dos funcionários.

Existe, portanto, uma contradição. As empresas afirmam valorizar a experiência, mas muitas ainda não possuem mecanismos robustos para medi-la. Segundo a KPMG, apenas 13% avaliam como altamente eficaz sua forma de coletar esse retorno.

Esse ponto aproxima mobilidade global da gestão de espaços. Para um profissional deslocado, a experiência não começa no avião nem termina no contrato de expatriação. Ela inclui chegada ao escritório, acesso ao prédio, estação de trabalho disponível, conectividade, salas adequadas, apoio de recepção, segurança, transporte, hospedagem, alimentação e orientação sobre a cidade.

Quando essa jornada falha, o problema aparece como fricção operacional, perda de produtividade e pior percepção da empresa.

Por que um FM deveria parar para ler esse assunto
Porque mobilidade global deixou de ser uma pauta distante da operação. O relatório da KPMG mostra que empresas estão redesenhando a forma como movimentam pessoas, contratam talentos, apoiam trabalho remoto internacional e medem valor. Cada uma dessas decisões chega, em algum momento, aos espaços físicos.

Um profissional que vem ao Brasil por três meses precisa de acesso, posto de trabalho, rede, crachá, sala, suporte, segurança, orientação local e serviços. Uma equipe brasileira que passa a trabalhar em projetos globais pode demandar reuniões fora do horário comercial, espaços híbridos mais bem equipados e suporte tecnológico mais robusto. Um executivo em trânsito pode precisar de uma estrutura diferente daquela oferecida a colaboradores fixos.

Em empresas com atuação internacional, facilities passa a ser parte da engrenagem que viabiliza a mobilidade. A área ajuda a transformar políticas de pessoas, jurídico, viagens, fiscal e negócio em experiência concreta de trabalho.

O recorte brasileiro
No Brasil, a mobilidade corporativa tende a ser influenciada por três frentes. A primeira é a presença de multinacionais com escritórios, fábricas, centros de serviços, operações logísticas e equipes regionais conectadas a outros países. A segunda é a consolidação do trabalho híbrido, que ampliou a discussão sobre onde o trabalho acontece. A terceira é a regulamentação de novas formas de permanência, como o visto para nômades digitais, criado para estrangeiros que trabalham remotamente para empresas de fora do país.

Essas frentes colocam pressão sobre governança. Empresas precisam saber diferenciar viagem de negócio, trabalho remoto temporário, transferência internacional, expatriação, contratação local e atuação em projeto global. Cada formato envolve riscos distintos em imigração, tributação, segurança, tecnologia, benefícios e uso dos espaços.

Para a gestão de ativos e ambientes corporativos, isso significa maior necessidade de integração com recursos humanos, jurídico, tecnologia, segurança patrimonial, viagens, compras e liderança das unidades de negócio.

A mobilidade também muda contratos e serviços
O relatório mostra que 30% das organizações planejam emitir processos de contratação de fornecedores nos próximos 12 a 18 meses para diferentes serviços de mobilidade. O dado sugere que muitas empresas estão revisando parceiros, indicadores e modelos de entrega.

No Brasil, essa tendência pode alcançar contratos de viagens, hospedagem, realocação, transporte executivo, espaços flexíveis, seguros, apoio documental, consultorias tributárias, gestão de vistos e fornecedores de tecnologia.

Para áreas de compras e facilities, o desafio é evitar que cada demanda seja tratada como exceção. Quanto mais móvel a força de trabalho, maior a necessidade de contratos com escopo claro, indicadores de desempenho, canais de atendimento, níveis de serviço e responsabilidades bem definidas.

O que observar agora
O relatório da KPMG não traz uma estatística específica sobre o Brasil, mas oferece um mapa útil para empresas brasileiras e multinacionais que operam no país. A mobilidade global está se tornando mais estratégica, mais tecnológica, mais orientada a dados e mais dependente da experiência dos colaboradores.

Para a operação corporativa, isso significa observar se os espaços estão preparados para receber profissionais em trânsito, se os dados de ocupação conversam com as políticas de mobilidade, se contratos de apoio são flexíveis o suficiente e se a experiência de quem trabalha temporariamente em outro local está sendo medida.

A mobilidade do futuro não será apenas sobre levar pessoas de um país para outro. Será sobre criar condições para que talentos possam atuar onde o negócio precisa, com segurança, conformidade, eficiência e uma experiência de trabalho consistente.

Como construímos este material
Esta matéria foi desenvolvida com base no 2025 KPMG Global Mobility Benchmarking Report, que reúne respostas de 456 profissionais de mobilidade global em 29 países e 12 setores. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].


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