Ser gerente ainda vale a pena? A vantagem da liderança está diminuindo no trabalho

Relatório global da Gallup mostra que gestores estão menos engajados, mais estressados e cada vez mais próximos da realidade emocional das equipes que lideram. O cargo continua oferecendo influência e propósito, mas a conta da liderança parece ter ficado mais pesada

Por Redação


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Por muito tempo, assumir uma posição de liderança foi visto como um passo natural na carreira. Mais autonomia, reconhecimento, melhores salários e maior influência sobre decisões estratégicas faziam parte do pacote. Mas os dados mais recentes sobre o mundo do trabalho indicam que essa conta está mudando.

O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, traz um capítulo com um título provocativo: The Shrinking Perk of Being a Manager, algo como "a vantagem cada vez menor de ser gerente". A análise mostra que, globalmente, os gestores estão menos engajados no trabalho e mais pressionados emocionalmente do que nos últimos anos.

O engajamento dos gestores caiu mais do que o das equipes
Segundo a Gallup, o engajamento global dos gestores caiu de 31% em 2022 para 22% em 2025. Trata-se de uma redução de nove pontos percentuais em três anos. No mesmo período, o engajamento dos profissionais sem função de liderança passou de 20% para 19%. Ou seja, a distância entre quem lidera e quem é liderado ficou muito menor.

Se antes os gestores apresentavam níveis mais altos de conexão com o trabalho, hoje eles estão cada vez mais próximos da média das equipes.

Mais responsabilidade, mais desgaste
A perda dessa vantagem não significa que a liderança tenha deixado de trazer benefícios. Gestores ainda apresentam indicadores superiores de percepção positiva sobre a própria vida. Globalmente, 40% dos gestores dizem estar prosperando, ante 32% dos profissionais sem posição de liderança.

O problema é que esse saldo positivo convive com maior carga emocional. O levantamento mostra que líderes relatam mais estresse, raiva, tristeza e solidão do que os demais trabalhadores.

Comparados aos profissionais sem função de liderança, eles registram sete pontos percentuais a mais em estresse, 12 pontos em raiva, 11 pontos em tristeza e 10 pontos em sentimentos de solidão.

Na prática, ocupar cargos de gestão pode melhorar a percepção sobre trajetória profissional e perspectivas futuras, mas não necessariamente torna o dia a dia mais leve.

A liderança virou ponto de pressão das empresas
Parte dessa mudança está relacionada ao próprio redesenho do trabalho. Nos últimos anos, gestores passaram a lidar com equipes híbridas, pressão por resultados, aceleração tecnológica, saúde mental, conflitos de prioridade e adoção de inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, muitas empresas reduziram estruturas intermediárias, ampliando o número de pessoas sob responsabilidade de cada líder.

O relatório cita movimentos observados no setor de tecnologia da Índia, onde desacelerações nas contratações vieram acompanhadas da redução de cargos de média liderança. A consequência tende a ser o aumento da amplitude de controle dos gestores que permanecem.

Sem gestores preparados, a IA não entrega o que promete
O estudo da Gallup também chama atenção para o papel dos gestores na adoção da inteligência artificial.

Nas organizações que estão implementando IA, um dos principais fatores para que os colaboradores utilizem efetivamente as ferramentas é o apoio ativo da liderança direta.

Funcionários que percebem esse incentivo são quase 99 vezes mais propensos a afirmar que a tecnologia transformou a forma como o trabalho é realizado.

O dado reforça uma contradição do momento atual. As empresas investem em tecnologia, mas os resultados continuam dependendo da capacidade humana de liderar mudanças.

Ser gerente continua valendo a pena?
A pergunta não tem resposta simples. Os dados sugerem que a liderança continua associada a maior senso de propósito, melhores perspectivas sobre a própria vida e mais influência nas organizações. Ao mesmo tempo, o cargo parece ter perdido parte dos incentivos emocionais que historicamente o acompanhavam.

Se antes a ascensão para a gestão representava um ganho quase automático de reconhecimento e satisfação profissional, hoje ela exige preparo para lidar com ambiguidades permanentes.

O gestor se tornou tradutor da estratégia, mediador de conflitos, apoiador do desenvolvimento das equipes e agente de implementação de novas tecnologias.

O principal recado do relatório é que o problema não está em liderar. O desafio está em continuar tratando a liderança como uma promoção individual, quando ela se tornou uma competência organizacional que exige suporte, formação e redes de apoio consistentes.

Em um momento em que tantas empresas discutem sucessão, retenção e desenvolvimento de talentos, a pergunta deixa de ser apenas quem quer ser gerente. A questão passa a ser se as organizações estão tornando a liderança uma experiência sustentável.

Como construímos este material
Esta matéria foi elaborada com base no relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, estudo anual que reúne indicadores globais sobre engajamento, bem-estar e experiências dos trabalhadores em diferentes regiões do mundo. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].


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