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O novo mapa do workplace é debatido por especialistas do evento IFMA Latam 2026

Presença sem sentido não é cultura, é só agenda lotada e energia desperdiçada

Por Léa Lobo

O novo mapa do workplace é debatido por especialistas do evento IFMA Latam 2026

Foto: Divulgação



O evento virtual “Sincronizando 2026: O Novo Mapa do Ambiente de Trabalho”, realizado online, abriu oficialmente o calendário de transmissões ao vivo do IFMA LATAM em 2026 com uma proposta simples e poderosa, a de parar, comparar notas e “sincronizar” perspectivas sobre o que mudou, e o que ainda vai mudar, no ambiente de trabalho na região. Na prática, foi menos sobre tendências “de vitrine” e mais sobre o que realmente faz o workplace funcionar (ou falhar) quando o híbrido vira regra, a tecnologia acelera e o contexto local insiste em mandar no jogo.

Na apresentação de abertura, Matt Tucker (Diretor de Pesquisa da IFMA, Reino Unido) colocou o tom da conversa: o futuro do trabalho tem desafios globais, mas as respostas são sempre regionais. E, se a América Latina quer ser ouvida nas discussões mundiais, precisa trazer a própria realidade, com suas contradições, suas urgências e seus avanços.

Um painel regional, real e sem “receita mágica”

A moderação ficou com Jose Luis Sanchez-Concha Ibarra (Network Rules – Peru), que conduziu o debate com objetividade e profundidade, fugindo de respostas fáceis e de soluções “milagrosas”, e garantindo uma conversa prática e conectada à realidade da região.

O painel reuniu quatro vozes com experiências complementares e forte atuação em workplace na América Latina: Dulce Barocio (TERABIM – México), Cibele Verasto, líder sênior de ambientes de trabalho na Databricks (Brasil), Esteban Martinez (Green Loop – Colômbia) e Enrique García Basterra, responsável por Operações de Workplace para a América Latina na Coca-Cola, com base na Costa Rica.

A pergunta de largada foi direta, qual tendência mais transformadora vai definir os espaços de trabalho na América Latina em 2026? E a resposta, curiosamente, convergiu para um ponto comum: não existe “uma” tendência. Existe um conjunto,  e ele começa antes da tecnologia, antes do layout e antes do mobiliário.

A era do híbrido exige intenção, não presença “por tradição”

Cibele Verasto trouxe uma ideia que, na minha opinião, deveria estar colada na testa de todo mundo que desenha escritórios: o modelo começa pelo entendimento profundo da organização, incluindo cultura, liderança, desafios e, sobretudo, o motivo real que leva alguém a ir ao escritório. Não é “quantos dias”, é “para quê”. Concentrar? Trocar? Fortalecer vínculo? Atender cliente? Se você não responde isso, você reforma o espaço inteiro… e ele vira só um cenário bonito para cadeira vazia.

Ela também destacou um ponto que está fervendo no mercado, que é a busca por novas tecnologias, com IA como promessa grande, mas ainda “começando de verdade” na região, pedindo experimentação e maturidade.

Enrique García Basterra foi na mesma direção, com uma leitura bem pragmática: 2026 marca um ponto de virada em que o colaborador deixa de ser “considerado” e passa a ser centro de decisão de design. E ele foi incisivo ao dizer que o escritório do futuro não compete com a casa; ele compete com a pergunta silenciosa do colaborador “por que eu iria?”. Se não há valor claro, o escritório perde para a indiferença.

Colaboração como infraestrutura invisível

Dulce Barocio resumiu sua aposta em uma palavra “colaboração”. Para ela, o salto de 2026 não é só do “espaço físico” para o “espaço moderno”; é do espaço como local para trabalhar para ecossistemas inteligentes, desenhados de forma adequada a cada organização. A mensagem é direta, onde tecnologia sem processo e sem gente vira enfeite caro.

E quando entrou no tema BIM, ela cravou um ponto que vale ouro: BIM não é software, é metodologia colaborativa de gestão da informação, que pode (e deveria) influenciar do projeto à operação. O grande travamento na América Latina, segundo ela, não é falta de ferramenta, é desconhecimento + mudança cultural + falta de liderança para bancar o salto. O remédio? Liderança clara, ajuda especializada e capacitação consistente, porque transformação digital não se instala “no grito”, se constrói.

Sustentabilidade que deixa de ser “projeto bonitinho” e vira gestão inteligente

Se teve um momento que “tirou o tema do poster e colocou no chão da operação”, foi quando Esteban Martinez falou de sustentabilidade. Ele descreveu uma evolução muito nítida: antes, a pauta vinha em pedidos pontuais, como biofilia, muro verde, fotovoltaica “da moda”. Resultado? Sobrecusto, manutenção problemática e frustração operacional.

O que está mudando, segundo ele, é o amadurecimento do Facility Management, onde sustentabilidade deixa de ser coleção de iniciativas e passa a ser gestão inteligente baseada em dados, capaz de impactar OPEX e desempenho real. A tese é forte, onde a sustentabilidade que dá trabalho demais ou custa caro demais, quase sempre foi mal concebida. Sustentabilidade boa é a que gera valor para a empresa e para as pessoas, e aparece no resultado operacional.

Ele ainda trouxe um roteiro prático para quem precisa “virar a chave” sem orçamento infinito: começar com diagnóstico e auditorias inteligentes, priorizar quick wins e usar dados para sair do modo reativo e entrar no modo proativo. E aqui vale a frase que ficou ecoando no encontro, sem dados, é só opinião.

Cultura organizacional no híbrido, não nasce por acidente, se desenha

Ao responder como manter cultura com times distribuídos, Cibele comentou que cultura não é “parede com valores” e não depende apenas do espaço físico. Cultura é comportamento repetido. E, se é comportamento, ela pode (e deve) ser desenhada por decisões conscientes: serviços, rituais, eventos, regras de uso, escuta contínua e alinhamento com propósito.

Ela chamou atenção para um “superpoder” do workplace manager em 2026. Olhar como as pessoas usam o espaço, por que estão ali, o que funciona e o que não funciona. Sem isso, acontece o clássico: ou as pessoas não voltam, ou voltam… e não ficam.

Enrique reforçou a mesma lógica por outro ângulo, onde o maior erro da estratégia é generalizar. Quando você acha que algo serve para todos, você acaba desenhando para ninguém. E em uma América Latina diversa, com países em diferentes estágios de adoção do híbrido e com culturas onde “ser visto” ainda é confundido com produtividade, copiar e colar modelos globais sem adaptação local é pedir para dar errado com elegância.

No encerramento, o moderador costurou três palavras que amarraram o encontro: capacitação, dados e escuta. Capacitação para atravessar o desconhecimento e adotar novas formas de trabalhar. Dados para tornar sustentabilidade e eficiência algo mensurável e estratégico. E escuta para alinhar cultura e espaço — porque o escritório do futuro não se impõe: ele convence.

Na rodada final, uma pergunta-relâmpago desafiou os participantes a definirem, de forma breve, o workplace do futuro, e as respostas, embora vindas de perspectivas diferentes, desenharam um retrato bastante coerente: um espaço que não disputa com a casa, mas com a indiferença do colaborador; que funciona como complemento confortável, inclusivo e funcional ao home office; que opera com inteligência, dados e propósito claros; e que se estrutura como unidades estratégicas (muitas vezes híbridas ou até virtuais) pensadas “do usuário para trás”, ou seja, a partir das reais necessidades de quem utiliza o ambiente de trabalho.

E eu fecho com a provocação que, honestamente, deveria virar KPI, de que o workplace do futuro é cheio de gente vibrante, mas gente que está ali porque vale a pena, não porque mandaram. Porque, em 2026, presença sem sentido não é cultura. É só agenda lotada e energia desperdiçada.


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