Por Léa Lobo

| Participantes do painel: Adryele Neves, diretora da Anritsu e colíder de Telecomunicações do IWB, e Léa Lobo, Head de Conteúdo da InfraFM (mediadoras); Diego Pivoto, pesquisador em redes 5G e 6G, IA e ML no Inatel; Márcia Ferrari, Head de Market Intelligence da Neowrk, cofundadora e conselheira do IWB; Ana Elisa Figueiredo, executiva de RH e Comunicação da ASUR Brasil; e Regiane Relva Romano, diretora da VIP-Systems Tecnologia & Inovação. |
Mais do que ampliar a velocidade das conexões, o 6G deverá integrar comunicação, sensoriamento e inteligência artificial para apoiar decisões em tempo real. Para os debatedores, porém, seu verdadeiro valor dependerá de colocar as pessoas no centro da transformação. A próxima geração das redes móveis poderá mudar não apenas a forma como pessoas e dispositivos se comunicam, mas também como edifícios, aeroportos e cidades percebem o ambiente, antecipam riscos e reagem a situações críticas. Essa foi uma das principais conclusões do painel “E se o 6G resolvesse isso?”, realizado durante o HackTown 2026, no Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), em Santa Rita do Sapucaí (MG).
Mediado por Adryele do Valle Rodrigues Neves, diretora da Anritsu e colíder de Telecomunicações do Infra Women Brazil, e por Léa Lobo, Head de Conteúdo da InfraFM, o encontro reuniu Diego Pivoto, pesquisador de redes 5G e 6G, inteligência artificial e machine learning no Inatel; Marcia Ferrari, especialista em inteligência de mercado e cofundadora da IWB; Ana Eliza Figueiredo, executiva de Recursos Humanos e Comunicação na Asur Brasil; e Regiane Relva Romano, especialista em tecnologia e cidades inteligentes.
Uma rede que também percebe o ambiente
Ao introduzir o tema, Diego Pivoto comparou as redes móveis atuais a um carteiro, na qual sua função principal é transportar uma informação até o destinatário. Com o 6G, explicou, a infraestrutura deverá avançar para uma atuação mais ampla, combinando conectividade e capacidade de sensoriamento.
Uma das tecnologias em desenvolvimento é a comunicação e sensoriamento integrados, conhecida pela sigla ISAC. A proposta é aproveitar os sinais de radiofrequência refletidos por paredes, objetos e pessoas, que hoje tratados principalmente como interferência, para identificar distâncias, movimentos e características do ambiente. Na prática, a própria rede poderá funcionar como uma espécie de radar.
Outros pilares destacados foram a inteligência artificial nativa, processada dentro da própria rede e mais próxima do usuário; a integração entre redes terrestres, aéreas e de satélites; e os gêmeos digitais, representações virtuais de ativos físicos que permitem simular cenários, fazer previsões e orientar decisões. Embora a expectativa seja de que o 6G comece a chegar ao mercado por volta de 2030, várias dessas tecnologias já estão sendo desenvolvidas e testadas separadamente.
Do edifício conectado ao workplace responsivo
Para Marcia Ferrari, a evolução poderá ampliar a inteligência já presente em edifícios equipados com sistemas de automação, controle de acesso, câmeras, sensores e Building Management Systems (BMS). O desafio é fazer com que os dados deixem de servir apenas ao controle da operação e também ajudem a compreender como as pessoas utilizam os espaços.
Informações sobre ocupação de mesas e salas, condições ambientais e padrões de circulação podem apoiar o Facility Manager na criação de ambientes mais confortáveis, eficientes e aderentes às novas dinâmicas do trabalho híbrido. Em vez de administrar o prédio com base somente em parâmetros técnicos fixos, o gestor passa a combinar desempenho operacional, experiência do usuário e produtividade.
Com redes mais inteligentes, IA na borda e gêmeos digitais, edifícios também poderão simular eventos extremos, definir rotas de evacuação e automatizar respostas previamente testadas. A tecnologia não elimina o julgamento humano, mas pode encurtar o tempo entre a identificação do risco e a ação.
Aeroportos, antecipar problemas para reduzir a fricção
Ana Eliza Figueiredo lembrou que aeroportos funcionam como microcidades: concentram passageiros, trabalhadores, autoridades, comércio, serviços e uma operação que precisa permanecer coordenada. Hoje, muitas ações são iniciadas apenas depois que uma fila, um atraso de voo ou outra ocorrência já se tornou visível.
Na visão da executiva, a capacidade de percepção e antecipação prometida pelo 6G pode conectar melhor esse ecossistema e reduzir a fricção na jornada do passageiro. Isso inclui não apenas emitir alertas, mas entregar orientações adequadas à localização e às necessidades de cada público, apontar rotas seguras e acionar as equipes responsáveis antes que o problema se agrave.
Ela reforçou, no entanto, que a inovação precisa beneficiar pessoas de diferentes perfis e condições sociais. “É impossível tirar as pessoas do centro dessa conversa”, afirmou. A conectividade não deve ampliar desigualdades, mas ajudar a oferecer segurança, acessibilidade e qualidade de vida.
Resposta a desastres e continuidade das operações
As aplicações em emergências climáticas ocuparam parte central do debate. Ao recordar a perda de conectividade provocada pelas enchentes no Rio Grande do Sul, Pivoto explicou que uma infraestrutura integrada poderia recorrer automaticamente a satélites e drones quando as redes terrestres fossem danificadas. Além de restabelecer a comunicação, drones equipados com antenas poderiam captar movimentos e apoiar a localização de sobreviventes.
Regiane Relva Romano ampliou essa visão para a escala urbana. Sensores de chuva, deslizamento, temperatura e fluxo de pessoas, conectados a centros de controle e a sistemas de IA agêntica, poderiam desencadear respostas automáticas: enviar ambulâncias, abrir uma “onda verde” nos semáforos, localizar vagas em hospitais e preparar equipes de atendimento. Em um desabamento, sinais de radiofrequência poderiam contribuir para detectar movimento ou sinais vitais sob os escombros.
Para Facilities Management e Real Estate, o debate reforça a importância de integrar conectividade, energia de contingência, automação, planos de emergência e treinamento de pessoas. Sensores e alertas isolados não bastam. O valor está em transformar dados em decisões coordenadas e em respostas que preservem vidas e garantam continuidade operacional.
Eficiência sem abrir mão da ética

O potencial do 6G vem acompanhado de questões delicadas. Uma rede capaz de perceber pessoas, movimentos e até dados biológicos aumenta a necessidade de discutir privacidade, proteção de dados, transparência e limites de monitoramento desde a fase de concepção das soluções.
Regiane ressaltou que uma cidade inteligente não deve ser confundida com uma cidade apenas digital. “A cidade inteligente é aquela que coloca o ser humano no centro e, a partir de suas necessidades, utiliza ou não tecnologia para melhorar a qualidade de vida das pessoas”, resumiu.
O painel também alertou para a sobrecarga de informações e para o risco de padronização de comportamentos em ambientes excessivamente monitorados. Para Ana Eliza, a governança precisa acompanhar o desenvolvimento tecnológico desde agora, evitando que os impactos humanos e sociais sejam tratados apenas depois da implantação.
Preparar profissionais e o Brasil
Além da infraestrutura técnica, a chegada do 6G exigirá novas competências. Capacidade de adaptação, gestão emocional, repertório, pensamento crítico e aprendizado contínuo foram apontados como atributos essenciais para trabalhar em ambientes cada vez mais automatizados. A recomendação de Regiane aos jovens foi direta: “Aprendam a aprender”. Marcia completou que a tecnologia deve ser tratada como ferramenta, sem transferir a ela a responsabilidade pelas decisões.
O debate ocorreu em um momento de pré-padronização do 6G, no qual universidades, empresas, governo e sociedade ainda podem participar da definição de prioridades. Para os especialistas, o Brasil precisa aproveitar sua competência em telecomunicações e seu peso de mercado para contribuir com padrões que respondam às necessidades do país.
A pergunta que deu nome ao painel, portanto, permanece como provocação. Antes de imaginar tudo o que o 6G poderá resolver, é preciso decidir quais problemas devem ser priorizados, quem será beneficiado e quais limites não podem ser ultrapassados. Para os gestores de infraestrutura, esse futuro começa agora, com integração dos dados, na resiliência das operações e, sobretudo, na escolha de manter o ser humano no centro das decisões.