Por Redação

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Eficiência energética em hospitais costuma ser associada à substituição de equipamentos, a grandes retrofits e a investimentos elevados em infraestrutura. Os vencedores do Energy to Care Awards 2026, promovido pela American Society for Health Care Engineering (ASHE), ligada à American Hospital Association (AHA), ajudam a ampliar essa leitura. O reconhecimento não é concedido pelos equipamentos instalados, mas pela capacidade de manter, ao longo do tempo, uma gestão sistemática do desempenho energético sem comprometer a segurança, a confiabilidade e a qualidade da assistência.
Em sua edição de 2026, o programa reconheceu cerca de 140 instalações de saúde, sendo aproximadamente 70 delas classificadas como Sustainability Champions (Campeões da Sustentabilidade, em tradução livre), categoria reservada às organizações que alcançam reduções expressivas e sustentadas no consumo de energia.
Um programa baseado em desempenho, não em projetos
Diferentemente de premiações voltadas para inovação tecnológica ou certificações de edificações, o Energy to Care acompanha indicadores operacionais. Os hospitais participantes utilizam uma plataforma própria para registrar dados de consumo de energia, água e emissões de gases de efeito estufa, permitindo comparar resultados ao longo do tempo e com organizações semelhantes. Entre os principais critérios para reconhecimento estão reduções do indicador de intensidade energética (Energy Use Intensity – EUI) ajustadas às condições climáticas, demonstrando que a melhoria precisa ser consistente e mensurável.
Essa abordagem aproxima o programa dos princípios estabelecidos pela ISO 50001, norma internacional voltada para sistemas de gestão de energia. Em vez de tratar eficiência como um projeto com início e fim definidos, a norma propõe um ciclo permanente de monitoramento, análise, implementação de melhorias e verificação de resultados. Na prática, a economia deixa de depender exclusivamente da aquisição de novos equipamentos e passa a estar ligada ao desempenho cotidiano da operação.
O que os hospitais premiados têm em comum
Embora cada hospital possua características próprias, os materiais técnicos divulgados pela ASHE revelam práticas recorrentes entre as organizações reconhecidas. Elas não formam uma receita única, mas indicam como a gestão energética é incorporada à rotina operacional.
- Monitoramento contínuo: as equipes não esperam o fechamento da conta mensal para avaliar o consumo. Dados de energia são acompanhados ao longo do tempo, permitindo identificar desvios, comparar períodos e verificar o efeito das intervenções realizadas.
- Operação baseada em indicadores: intensidade energética, demanda máxima, perfil horário e consumo fora dos períodos de maior atividade são utilizados para interpretar o comportamento da edificação. A análise substitui decisões baseadas apenas em percepção ou histórico de contas.
- Integração entre operação, manutenção e automação: sistemas de climatização, centrais de água gelada, bombas, iluminação e geração de água quente são tratados de forma conectada. Horários de funcionamento, sequências de controle e parâmetros operacionais passam por revisões frequentes.
- Calibração e ajuste dos sistemas: sensores imprecisos, setpoints inadequados e comandos automáticos desatualizados podem manter equipamentos funcionando acima da necessidade real. A correção desses desvios aparece entre as medidas capazes de gerar economia sem grandes intervenções físicas.
- Manutenção orientada ao desempenho: serpentinas sujas, filtros saturados, válvulas desreguladas e equipamentos operando fora das especificações aumentam o consumo e reduzem a confiabilidade. Publicações da ASHRAE relacionam a conservação do desempenho energético à qualidade da manutenção dos sistemas.
- Treinamento das equipes: os resultados não ficam restritos ao responsável pela energia. Operadores, técnicos de manutenção, engenharia e administração passam a compartilhar informações e metas, reduzindo o risco de que uma economia obtida em determinado período seja perdida por alterações posteriores na rotina.
- Comissionamento contínuo: os sistemas são reavaliados para verificar se continuam funcionando de acordo com a necessidade atual da instalação. Em hospitais, mudanças de ocupação, expansão de áreas e inclusão de equipamentos podem alterar cargas e tornar antigas configurações menos eficientes.
Em ambientes hospitalares, essas práticas precisam conviver com requisitos rigorosos de renovação de ar, temperatura, umidade e pressão diferencial. Por isso, os ganhos não resultam simplesmente de reduzir o funcionamento dos sistemas, mas de alinhar o consumo às condições efetivamente exigidas pela assistência.
Os indicadores que ajudam a entender o consumo
A experiência dos hospitais também reforça a importância de acompanhar indicadores que permitam interpretar o comportamento energético da edificação. Entre eles, o consumo específico em kWh por metro quadrado continua sendo uma das referências mais utilizadas internacionalmente para comparar edifícios semelhantes.
Em hospitais, também é comum acompanhar indicadores como consumo por leito operacional, intensidade energética ajustada ao clima, demanda máxima registrada e fator de carga das instalações elétricas. Já em edifícios corporativos, universidades, aeroportos e shopping centers, métricas como consumo fora do horário de ocupação, perfil horário de demanda e participação dos principais sistemas consumidores ajudam a localizar desvios que não aparecem na análise isolada da conta mensal.
Estudos do ENERGY STAR e do U.S. Department of Energy indicam que os sistemas de climatização estão entre os principais consumidores de energia em hospitais, com variações relacionadas ao clima, à idade da edificação e às características operacionais. Isso explica por que grande parte das ações de melhoria se concentra em HVAC, automação e estratégias de controle.
Um benchmark que ultrapassa os hospitais
Hospitais estão entre os edifícios mais complexos para operar. Funcionam ininterruptamente, possuem elevada densidade tecnológica, requisitos rigorosos de climatização e alta criticidade operacional. Justamente por isso, práticas capazes de produzir resultados consistentes nesse ambiente despertam interesse também em outros segmentos intensivos em infraestrutura.
Edifícios corporativos, laboratórios, aeroportos, universidades e shopping centers compartilham diversos sistemas presentes em hospitais, como climatização central, automação predial, iluminação, bombeamento, geração de água quente e gestão elétrica. Embora as exigências operacionais sejam distintas, princípios como monitoramento contínuo, análise de desempenho e melhoria permanente permanecem aplicáveis a diferentes ativos.
Ao reconhecer resultados sustentados ao longo do tempo, o Energy to Care reforça uma mudança observada em diferentes setores da infraestrutura predial. A eficiência energética deixa de ser encarada apenas como consequência de uma obra e passa a fazer parte da rotina operacional, apoiada por dados, indicadores e processos capazes de preservar continuamente o desempenho dos sistemas.
Como construímos este material
Essa matéria foi elaborada com base nas informações oficiais do programa Energy to Care Awards da American Society for Health Care Engineering (ASHE), da American Hospital Association (AHA), além de documentos técnicos da ASHRAE, ISO 50001, ENERGY STAR, U.S. Department of Energy e referências públicas sobre gestão energética em edificações complexas. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].