
| Imagem: Pixels, por Karola_G |
Por décadas, organizações trataram felicidade como um “tema soft”, quase decorativo, algo para colocar na semana do RH, junto do coffee break e do brinde corporativo. Mas o World Happiness Report 2025 (WHR), publicado pelo Wellbeing Research Centre da Universidade de Oxford em parceria com Gallup e a UN Sustainable Development Solutions Network, joga um balde de dados na mesa: cuidar e compartilhar não são só valores humanos são determinantes objetivos do bem-estar.
A edição 2025 destaca justamente o papel da benevolência e das conexões sociais na felicidade global, analisando práticas como doação, voluntariado, ajuda a desconhecidos, convivência familiar e até um hábito cotidiano que parece banal, mas é poderoso: compartilhar refeições.
Para o universo de Facility, Property e Workplace Management, o recado é que o ambiente não é cenário, é uma ferramenta de saúde pública e de cultura organizacional. Felicidade tem “infraestrutura”, pois confiança e relações sustentam o bem-estar.
O relatório mostra que pessoas tendem a ser mais pessimistas do que deveriam sobre a bondade dos outros. Um exemplo forte é o estudo sobre “carteiras perdidas”: quando pesquisadores deixaram carteiras caírem na rua, a taxa real de devolução foi muito maior do que a expectativa das pessoas. E aqui mora um ponto essencial: a percepção de benevolência importa tanto quanto a benevolência real. Ou seja, não basta existir um ambiente com boa convivência, é preciso que ele seja percebido como seguro, cooperativo e humano. Na prática, isso se traduz em Workplace com confiança e transparência (inclusive na comunicação interna); espaços que favoreçam encontros reais, não apenas “estações de trabalho”; rotinas que reforcem pertencimento, em vez de isolamento silencioso.
Refeições compartilhadas é indicador global de conexão e bem-estar
Um dos capítulos mais provocativos é o que trata do hábito de comer junto. O WHR 2025 afirma que compartilhar refeições tem impacto comparável ao da renda e do desemprego no bem-estar subjetivo. Pessoas que fazem refeições com outros relatam mais satisfação com a vida e emoções positivas, e menos emoções negativas.
O relatório chama atenção para um sinal vermelho nos Estados Unidos: em 2023, cerca de 1 em cada 4 americanos afirmou ter feito todas as refeições sozinho no dia anterior, crescimento de 53% desde 2003.
No contexto corporativo, esse dado vira uma provocação direta. Quantas empresas “economizam” no espaço de convivência e depois pagam caro em burnout, absenteísmo e desengajamento?
Solidão jovem aumenta no mundo e vira risco silencioso nas organizações
O relatório também evidencia que a solidão e a desconexão social estão crescendo, principalmente entre jovens. Em 2023, 19% dos jovens adultos no mundo disseram não ter ninguém com quem contar para apoio social, um salto de 39% comparado a 2006.
O mais inquietante é que muitos jovens subestimam a empatia dos pares, evitando conexões por acreditarem que não serão bem recebidos, mas intervenções simples, baseadas em evidências, mostraram melhora significativa de bem-estar ao revelar que a empatia entre colegas era maior do que eles imaginavam. Em linguagem InfraFM: isso não é “psicologia fofinha”. Isso é gestão de risco humano.
Outro achado contundente liga comportamentos pró-sociais (como doar, ajudar, voluntariar) à redução das chamadas “mortes por desespero” (suicídio e abuso de substâncias). A regressão apresentada indica que um aumento de 10 pontos percentuais na proporção de pessoas engajadas em ações pró-sociais se associa a aproximadamente 1 morte a menos por ano a cada 100 mil habitantes.
É o tipo de estatística que transforma “bem-estar” de pauta emocional para pauta de saúde e sustentabilidade social.
O que o Facility e o Workplace Managers devem fazer com isso?
O relatório escancara um futuro inevitável: a gestão do ambiente será cada vez mais gestão de saúde mental, conexão e confiança. Isso puxa o Facilities para o centro da estratégia, e não só para o porão operacional. Alguns caminhos práticos que emergem do relatório:
- Espaços que induzem conexão - Menos “layout Instagramável” e mais ambientes que permitam encontros espontâneos e seguros.
- Rituais sociais no dia a dia - Cultura se fortalece no cotidiano: mesas coletivas, cafés, hubs, incentivos ao almoço junto, não como evento, mas como rotina.
- Trabalho híbrido com intenção - Híbrido sem projeto vira isolamento com Wi-Fi. O relatório reforça: conexão não é acessório.
Gestão de confiança (de verdade) - Se as pessoas subestimam a bondade dos outros, então o ambiente precisa sinalizar cooperação, acolhimento e previsibilidade.
O World Happiness Report 2025 é, no fundo, um recado para líderes e gestores: o mundo não está carente de tecnologia, está carente de vínculo. E o espaço corporativo pode ser um grande aliado (ou o vilão silencioso) dessa história. No Brasil, onde Facility e Workplace Management já lidam com desafios complexos de operação, clima, segurança, limpeza, mobilidade e custos, a maturidade do setor agora exige mais um olhar: bem-estar como infraestrutura social.
Porque, no fim, felicidade é isso: não um sorriso permanente, mas a sensação de que alguém “devolve a carteira”. E que você não está sozinho.