Na higienização hospitalar dimensionar melhor não significa apenas aumentar equipes

Estudo com dez unidades assistenciais mostra que leitos e área física explicam o tamanho das equipes, mas qualidade depende também de processos, organização e gestão

Por Edgar Dias, Amanda Verzula, Pedro Firme, Polyana Melo, Lívia Valadão, Analu Pereira, Pablo Dantas, Maira de Oliveira e Esther Verri
Departamento de Gestão de Facilities e Higiene Hospitalar da Athena Saúde

Na higienização hospitalar dimensionar melhor não significa apenas aumentar equipes

Foto: Alejandro J. Paredes Perez by Pexels

A higienização hospitalar é uma atividade diretamente relacionada à segurança do paciente e ao controle de infecções. Apesar disso, o dimensionamento das equipes ainda é frequentemente baseado em referências de mercado ou experiências anteriores, nem sempre apoiadas por dados da própria operação.

Foi justamente essa questão que nos levou a analisar o comportamento das equipes de higienização em dez unidades assistenciais durante os anos de 2024 e 2025. Queríamos responder a duas perguntas bastante práticas para quem administra contratos e operações de Facilities. O número de profissionais alocados pode ser explicado pelas características físicas de cada unidade? E colocar mais profissionais por leito resulta, de fato, em melhor desempenho do serviço? Os resultados trouxeram respostas importantes.

Leitos e área física ajudam a dimensionar equipes
Nossa análise mostrou uma relação muito forte entre o número de leitos operacionais e o headcount de higienização. A metragem da unidade também teve influência significativa. Quando avaliamos conjuntamente as variáveis leitos e área física, elas explicaram 97,3% da variação do tamanho das equipes analisadas.

A partir dos dados, chegamos a uma fórmula simplificada que pode funcionar como referência prática: HC recomendado = 0,4 × leitos operacionais + (área em m² ÷ 1.600)

Não entendemos essa fórmula como uma regra universal. Ela nasce de uma base específica e precisa ser validada em outros contextos, mas demonstra algo importante, de que é possível avançar de modelos empíricos para um dimensionamento cada vez mais orientado por dados. Para Facilities, isso pode apoiar tanto o planejamento de novas unidades quanto auditorias de contratos e revisões de escopo.

Mais profissionais não significaram melhor SLA
Talvez o resultado mais relevante do estudo tenha sido outro. Ao compararmos a quantidade de profissionais por leito com o desempenho de SLA, não encontramos uma relação estatisticamente significativa. Em outras palavras, dentro da amostra analisada, simplesmente aumentar o efetivo de higienização não significou melhorar automaticamente a qualidade percebida e medida pelo contrato.

Esse resultado reforça uma discussão importante para gestores de Facilities, de que problemas de qualidade nem sempre são problemas de quantidade de pessoas. Treinamento, supervisão, protocolos, disponibilidade de insumos, organização dos turnos, produtividade, fluxos operacionais e até a configuração física dos ambientes podem exercer influência significativa sobre os resultados.

O espaço também interfere na produtividade
Outro dado chamou nossa atenção. As cinco unidades com melhor desempenho médio de SLA apresentaram, em média, 128 m² por leito, enquanto nas cinco unidades de menor desempenho essa relação chegou a 164 m² por leito. Esse resultado não permite afirmar que a metragem seja, isoladamente, responsável pela diferença de qualidade.

Entretanto, levanta uma hipótese relevante, que quanto maior a área e os deslocamentos necessários para atender determinado número de leitos, maior pode ser a complexidade operacional da higienização. Isso mostra por que olhar apenas para número de leitos ou quantidade de profissionais pode ser insuficiente.

O principal aprendizado que extraímos desse estudo é que dimensionamento e qualidade precisam ser tratados como questões relacionadas, mas não equivalentes.

Leitos operacionais e área física mostraram-se excelentes referências para compreender quantas pessoas uma operação demanda. Porém, o desempenho do serviço parece depender de uma combinação muito mais ampla de fatores. Por isso, antes de concluir que uma operação de higienização precisa simplesmente de “mais gente”, vale perguntar se o problema está realmente no dimensionamento ou está no processo?

Para quem administra Facilities em ambientes hospitalares, essa distinção pode representar melhores decisões de contratação, mais eficiência no uso dos recursos e, principalmente, maior qualidade na entrega. Transformar dados operacionais em critérios objetivos de decisão talvez seja um dos caminhos mais importantes para amadurecer a gestão da higienização hospitalar.

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