Por Léa Lobo

| Lívia Lourenço, presidente da ABRAFAC |
Há mais de 25 anos, Lívia Lourenço acompanha, e ajuda a construir, a evolução do FM no Brasil. Sua carreira começou aos 18 anos, na área então chamada de Gestão Patrimonial da Globo, e avançou por diferentes etapas da operação até chegar à liderança de ambientes e contratos complexos.
Depois de 15 anos na JLL, a executiva iniciou uma nova etapa à frente de Facilities Management em uma empresa do ramo farmacêutico. Ao mesmo tempo, preside a ABRAFAC e mantém o canal Minha Vida de Facilities, criado em 2018 e acompanhado por uma comunidade de mais de 20 mil pessoas. A Executiva também é criadora do canal Minha Vida de Facilities, coautora e InfraFM Top Voice, com atuação voltada à governança, inovação, desenvolvimento de pessoas e valorização do FM no Brasil.
Nesta entrevista à InfraFM, Lívia analisa os aprendizados que moldaram sua forma de liderar, defende a governança como base para a inovação e explica por que o Facility Manager precisa traduzir a operação para a linguagem do negócio, sem perder de vista as pessoas.
Você começou em FM aos 18 anos, quando a atividade ainda nem era reconhecida. O que fez você perceber que aquela poderia ser uma carreira para toda a vida?
Costumo brincar que talvez tenha entrado no mundo de Facilities ainda na barriga da minha mãe. Meu pai foi um dos pioneiros do Facility Management no Brasil, então esse universo sempre esteve presente em casa. Ainda assim, minha entrada na área aconteceu quase por acaso.
No meu primeiro emprego, na Globo, fui para a área que chamávamos de Gestão Patrimonial. Ali compreendi que não cuidávamos apenas de um prédio ou de serviços, éramos responsáveis por uma grande engrenagem, que precisava funcionar para que todo o restante acontecesse.
Também encontrei na profissão dois valores que recebi da minha família. Meu pai me ensinou autonomia, responsabilidade, disciplina e capacidade de governar; minha mãe, o cuidado com o próximo. Facilities exige justamente governança e cuidado ao mesmo tempo.
É preciso conhecer processos, antecipar necessidades, organizar recursos e resolver problemas, mas tudo isso existe para servir a alguém. No fim da cadeia, há sempre uma pessoa que precisa trabalhar, produzir, criar, sentir-se segura e acolhida. Mais de 25 anos depois, a profissão ganhou tecnologia, reconhecimento e dimensão estratégica, mas essa essência continua sendo a razão pela qual permaneci.
Sua trajetória foi construída muito perto da operação. Que experiências mais transformaram sua maneira de tomar decisões e liderar?
A operação foi minha maior escola de liderança. Percorri o ciclo de FM antes de chegar à gestão e vivi diferentes responsabilidades, contratos, clientes, fornecedores, equipes e níveis de complexidade. Quando assumi posições de liderança, já conhecia a operação por dentro.
Isso me permite compreender os diferentes lados da mesa e o impacto que uma decisão estratégica provoca na ponta. Daí vem uma característica muito forte da minha gestão, que é a governança. Acredito em processos, responsabilidades claras, indicadores, dados, planejamento e acompanhamento. Facilities Managers não podem viver permanentemente apagando incêndios; uma gestão madura precisa criar previsibilidade e antecipar riscos.
Ao mesmo tempo, nenhum processo funciona sem pessoas. Minha liderança é humana, o que não significa ser menos exigente. Cobro resultado, qualidade e excelência, mas preservo o respeito por quem está do outro lado. Os papéis são diferentes, mas o respeito deve ser o mesmo, do presidente ao profissional da portaria. Quero tomar decisões estratégicas sem esquecer quem fará tudo acontecer na operação.
Depois de uma longa trajetória na JLL, você inicia uma etapa em uma empresa do ramo farmacêutico. O que essa mudança representa em sua carreira?
Foi uma das decisões mais difíceis da minha carreira. Quinze anos representam história, relações, aprendizados, desafios e resultados. Encerrei esse ciclo com orgulho do legado que construí, especialmente pelas pessoas que ajudei a desenvolver, pelos times que formei e pelas relações que estabeleci.
Mas chega um momento em que precisamos ter coragem para perceber que podemos construir uma nova história. Sou movida por desafios e vi no convite para atuar em outro segmento a oportunidade de colocar minha experiência a serviço de um contexto diferente e, ao mesmo tempo, voltar a aprender intensamente.
Não vejo a mudança como ruptura, mas como evolução. O setor farmacêutico é complexo, altamente regulado e orientado às pessoas, o que se conecta profundamente com aquilo em que acredito. Levo uma base sólida de governança, processos, estratégia e desenvolvimento de pessoas, mas chego com humildade para aprender. Quanto mais sênior me torno, mais percebo a importância de continuar ouvindo, estudando e me desafiando.
Sua dedicação ao setor ultrapassa as responsabilidades do cargo. De onde vem esse compromisso com o desenvolvimento do FM?
Vem da convicção de que ninguém constrói uma carreira relevante sozinho. Tudo o que conquistei passou por pessoas que compartilharam conhecimento, abriram portas, ensinaram e acreditaram no desenvolvimento da profissão.
Por isso, nunca limitei minha atuação ao cargo ou à empresa em que estava. Participo de grupos, congressos, associações, discussões técnicas e iniciativas voluntárias porque acredito que o conhecimento precisa circular. Quando profissionais compartilham experiências e organizações criam espaços de diálogo, todo o ecossistema amadurece.
Há também uma responsabilidade geracional. Acompanhei uma parte importante da evolução do FM no Brasil. Se acumulei repertório nesse processo, também tenho a responsabilidade de devolver algo ao mercado. Fortalecer o setor de FM nunca foi apenas fortalecer minha carreira, mas ajudar a construir uma profissão mais preparada, respeitada e relevante.
Ao assumir a presidência da ABRAFAC, você passou a representar profissionais de diferentes regiões e momentos de carreira. O que essa experiência ensinou?
Minha história na ABRAFAC começou como associada. Depois, passei pelo Conselho, fui diretora-secretária, assumi a responsabilidade pelo Congresso e ampliei gradualmente minha participação. Ainda como diretora, acompanhei uma conquista importante, que foi a inclusão da ocupação relacionada a Facilities na Classificação Brasileira de Ocupações, a CBO.
Cheguei à presidência com o propósito de construir uma ABRAFAC mais movimentada, moderna, tecnológica e aberta. Fortalecemos os comitês, criamos o de Inteligência Artificial, avançamos nas certificações, ultrapassando 70 profissionais certificados, e criamos a Academia ABRAFAC, com cursos síncronos ministrados por especialistas. A associação alcançou mais de 1.500 associados e ampliou sua presença no Brasil e no exterior.
Também abrimos mais espaço para o ecossistema, com parcerias, apoio a eventos e diálogo com outras organizações. Não acredito que uma associação exista para criar silos, mas para dar voz, conectar e construir pontes. Liderar uma entidade não é fazer todos pensarem igual; é ouvir diferenças, encontrar convergências e transformar boas ideias em construção coletiva.
O que ainda precisa evoluir para que Facilities participe de maneira mais efetiva das decisões estratégicas das organizações?
Gostaria que abandonássemos o discurso de que o FM é uma área invisível. Estamos presentes todos os dias na experiência das pessoas, nos custos, nos riscos, na continuidade operacional, na produtividade e na sustentabilidade. O que precisamos desenvolver é a capacidade de traduzir tudo isso para a linguagem das organizações.
Não basta dizer que trabalhamos muito ou resolvemos problemas complexos. Precisamos chegar à mesa com números, indicadores, análises, impacto financeiro, gestão de riscos e clareza sobre o valor gerado. Isso começa pela governança. Não adianta falar em inteligência artificial ou automação se a operação não possui processos estruturados, responsabilidades claras e dados confiáveis. A tecnologia não corrige a falta de governança; ela potencializa o que já está estruturado.
O Facility Manager estratégico também precisa conhecer o negócio, apresentar cenários e defender investimentos com propriedade. O futuro da área está nesse equilíbrio, que inclui governança como base, tecnologia como alavanca e pessoas no centro das decisões.
Por meio do Minha Vida de Facilities, você mostra os bastidores e o lado humano da profissão. Por que isso é importante?
Criei o canal em 2018, quando quase ninguém mostrava o cotidiano de Facilities de forma aberta e próxima. Houve resistência no começo, mas continuei porque acreditava que outro lado da profissão precisava aparecer.
Nossa rotina é intensa e envolve pressão, emergências, fornecedores, orçamento e muitas variáveis. Mas Facilities não é apenas problema, há inovação, projetos, encontros, aprendizado e conquistas. No canal, compartilho eventos, cursos, livros, experiências e os ‘perrengues chiques’, além de dar voz a outros profissionais. Tenho orgulho de ter incentivado outras pessoas a criarem seus próprios espaços. Hoje, a comunidade reúne mais de 20 mil pessoas.
Ali não existe apenas a profissional Lívia, mas a pessoa inteira. Mostro, com responsabilidade, aspectos da vida pessoal porque sou apaixonada pela profissão e pela vida. Quero lembrar que é possível trabalhar muito, buscar excelência e ocupar posições de liderança sem deixar de viver. No fim, o Minha Vida de Facilities fala da área, mas fala principalmente de pessoas.
Ao olhar para sua história, que legado deseja deixar e que conselho daria a quem quer construir uma carreira sólida em Facilities?
Legado não começa a ser construído quando a carreira termina; é o que deixamos enquanto caminhamos. Vejo parte do meu legado nas pessoas que desenvolvi, nos profissionais aos quais dei visibilidade, nas equipes que liderei, nas portas que ajudei a abrir e nas iniciativas que apoiei.
Quero também contribuir para o futuro da profissão. Inteligência artificial, automação, dados e citizen development estão ampliando as possibilidades do Facility Manager. Tenho direcionado meus estudos para esse universo porque não quero apenas assistir à transformação, mas participar dela.
Meu primeiro conselho é que não parem de aprender. Estude tecnologia, dados, governança e negócios. Saia da própria operação, participe de congressos, feiras, grupos e associações, faça networking de verdade e compartilhe conhecimento. Ninguém constrói uma grande trajetória sozinho.
E não deixe para viver depois. Carreira e vida não deveriam ser adversárias. Gostaria de ser lembrada como alguém que ajudou a modernizar Facilities, abriu caminhos, desenvolveu pessoas, tratou gente como gente e nunca perdeu a capacidade de olhar para o futuro e que, enquanto construía tudo isso, soube viver.