Congresso InfraFM 2026 revela que a função de facilities management é mais estratégica, humana e orientada por dados

Palestras do Congresso InfraFM mostram a transformação do facilities management: de operação manual para função estratégica, alinhada a dados, tecnologia e sensibilidade humana, capaz de influenciar produtividade, sustentabilidade e valor dos ativos.

Por Léa Lobo

Congresso InfraFM 2026 revela que a função de facilities management é mais estratégica, humana e orientada por dados

Foto: Divulgação

As palestras do Congresso InfraFM evidenciaram um ponto comum: o Facility Management deixou definitivamente de ser uma função apenas operacional para assumir papel estratégico na transformação dos negócios, dos espaços e da experiência das pessoas. Em diferentes painéis, especialistas mostraram como IA, dados, ESG, segurança integrada, mobilidade, energia, workplace, liderança, finanças, circularidade, pós-ocupação e gestão de riscos estão redesenhando a atuação dos profissionais de FM. A mensagem recorrente foi que quem cuida dos ambientes também cuida da produtividade, da saúde, da reputação, da continuidade operacional, da eficiência financeira e da sustentabilidade das organizações.

Os conteúdos apresentados também reforçaram que o futuro do FM será menos baseado em controle manual e mais orientado por inteligência, governança, tecnologia e sensibilidade humana. Dos prédios que aprendem com dados aos espaços que acolhem diferentes gerações, da mobilidade corporativa à escassez de mão de obra, da liderança humanizada ao uso estratégico de contratos e fornecedores, os debates mostraram que a maturidade da área depende de decisões mais integradas, mensuráveis e conectadas ao negócio. Mais do que acompanhar tendências, o FM passa a ser chamado a liderar mudanças, traduzindo complexidade em valor real para empresas, ativos, equipes e usuários.

Brasil consolida protagonismo no mercado latino-americano de Facility Management
O painel de abertura do 21º Congresso InfraFM reuniu especialistas para discutir o tema “O futuro global do FM e o papel da América Latina, tendo o Brasil como protagonista”. Mediado por Satoshi F. Yadoya, diretor da Plataforma Técnica de Facilities da Sodexo, o debate contou com a participação de Fátima Bottameli, diretora LatAm de Soluções de Gerenciamento de Facilities da JLL, Alípio Neto, diretor de Operações da CBRE, e Rodrigo Costev, diretor de Operações de Facilities da Cushman & Wakefield.

Ao contextualizar a discussão, Yadoya destacou que o mercado de Facility Management na América Latina movimenta cerca de US$ 154 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 54 bilhões são gerados pelo Brasil.

Para Bottameli, esses números ajudam a explicar o crescente interesse de empresas globais pela região. Segundo ela, o Brasil tem atraído investimentos relevantes e se mantém como o principal mercado latino-americano, embora ainda enfrente desafios que impactam sua competitividade. “O país tem recebido importantes investimentos, mas ainda fica atrás de localidades com menos entraves, como o México, que possui uma legislação trabalhista mais simples”, observou.

Ao abordar a maturidade do mercado brasileiro, Neto apontou a coexistência de dois cenários distintos. “Temos o cenário do improviso, que se preocupa apenas com preço, e o da profissionalização, que entrega resultados mensuráveis e acompanhados por indicadores de desempenho”, afirmou. Para ele, ampliar a valorização da gestão profissional é fundamental para o avanço do setor.

Costev reforçou a necessidade de uma análise mais estratégica das decisões relacionadas à redução de custos. “A redução de custos precisa ser avaliada também pelos riscos que ela traz. Sempre que uma empresa adota essa estratégia, deve estar preparada para lidar com as consequências. Por isso, os profissionais de FM precisam assumir um papel cada vez mais consultivo, avaliando riscos e contribuindo para decisões mais sustentáveis para o negócio”, destacou.

Ao final do debate, os participantes convergiram na avaliação de que o crescimento do Facility Management na América Latina passa pela profissionalização, pela adoção de indicadores de desempenho e pelo fortalecimento do papel estratégico dos gestores. Nesse cenário, o Brasil mantém posição de destaque como principal mercado da região e um dos mais promissores para a expansão do setor.

Quando a maior empresa do Brasil revela como organiza seus contratos, fornecedores e operações
Bruno da Silva Paulo Lobão, gerente de Gestão Contratual – Serviços Corporativos, e Mateus Pacheco da Silva Guimarães, gerente de Orçamentação – Serviços Corporativos, ambos do Centro de Serviços Compartilhados (CSC) da Petrobras, apresentaram como o setor de Facility Management pode aprender com um dos sistemas de gestão mais estruturados do país. Os executivos abriram os bastidores de dois pilares que sustentam a eficiência da companhia. De um lado, o Centro de Serviços Compartilhados, responsável por centralizar rotinas administrativas, padronizar processos e proporcionar escala, controle e eficiência operacional. De outro, a governança estratégica de contratos e fornecedores.

A conversa abordou um desafio concreto enfrentado pelas grandes organizações: a dificuldade de identificar novos fornecedores preparados para atender aos rigorosos critérios técnicos, de segurança, conformidade e governança da companhia. Ao compreender como essas engrenagens funcionam na prática, os participantes foram convidados a refletir sobre como as empresas fornecedoras podem se estruturar melhor para acessar esse ecossistema. O encontro também mostrou como os princípios de organização, inteligência operacional e gestão contratual podem contribuir para elevar o nível da gestão de Facilities nas organizações.

TRILHA 1 – TENDÊNCIAS GLOBAIS & FUTURO DO TRABALHO

Presidente de mesa: Érica Prata, Arquiteta e Cofundadora da AKMX

Trabalho líquido mostra como o modelo híbrido e a economia sob demanda redesenham o papel dos FM
Julita Machado Vezzani, Especialista em Infraestrutura e Facilities, abordou o “trabalho líquido” a partir de uma experiência concreta de transformação, desmobilização e reorganização operacional em larga escala. Em sua apresentação, mostrou a evolução de uma operação com milhares de posições de trabalho, equipes em home office, grande volume de ativos, fornecedores, documentos prediais e auditorias, em um cenário pressionado por pandemia, remanejamento de operações, datacenter, prazos curtos e risco financeiro relevante. A fala reforçou que, em ambientes cada vez mais flexíveis e sob demanda, o FM precisa atuar com velocidade, governança, liderança participativa, reuniões diárias, soft skills e especialistas capazes de transformar complexidade em entrega. O legado apresentado foi que o novo FM precisa ser líder operacional, mas também ter visão de negócio, metodologia, capacidade de mobilizar pessoas e senso de delivery.

Paula Martins, Gerente Sênior de Operações e Serviços no Bradesco Seguros, conectou o tema ao case da nova sede Paulista, onde o desafio foi acomodar 2.700 pessoas, vindas de nove endereços, em 2.067 postos de trabalho, dentro de um modelo híbrido estruturado. Mais do que uma mudança física, o projeto representou um movimento estratégico de marca, eficiência operacional, experiência do colaborador e reposicionamento institucional em um endereço icônico. Paula destacou que o trabalho líquido nasce da relação entre esforço, produtividade e experiência, exigindo uma gestão de ocupação inteligente, apoiada por ferramentas como da Neowrk, redistribuição de colaboradores ao longo da semana, integração com RH e comunicação interna, além de leitura contínua dos dados gerados pela operação. Nesse novo desenho, Facilities deixa de apenas manter a infraestrutura e passa a interpretar como espaço, mobilidade, tecnologia, conforto e comportamento impactam diretamente o resultado do negócio e o bem-estar das pessoas.

Demografia, gerações e o futuro do workplace, um choque silencioso que já começou
Lorí Crízel, do escritório Lorí Crízel + Partners e Diretor do Instituto ApenLAB, abordou o futuro do workplace a partir de um choque demográfico que já está em curso: queda da natalidade, aumento da longevidade, escassez de talentos, inteligência artificial e convivência simultânea de múltiplas gerações dentro das organizações. Em sua apresentação, destacou que o desafio não será apenas encontrar espaço, mas encontrar pessoas, reter talentos e criar ambientes capazes de acolher diferentes formas de trabalhar. Para Lorí, o problema não está na idade, mas em aplicar um único modelo para pessoas com expectativas distintas sobre presença, flexibilidade, autonomia, estabilidade, velocidade e aprendizagem contínua. Sua leitura pela neuroarquitetura mostrou que os espaços não determinam comportamentos, mas ampliam ou limitam possibilidades, tornando o workplace um ativo humano, cultural e estratégico.

Thais Trentin, Fundadora e CEO da Workplace Arquitetura Corporativa, complementou essa discussão ao defender que o escritório deixou de ser custo para se tornar ativo estratégico, desde que consiga justificar sua existência pela experiência que entrega às pessoas e ao negócio. A partir de sua vivência com mais de 700 organizações, reforçou que o desafio do workplace começa nas pessoas, não na planta, e que as perguntas mais importantes são existenciais: como queremos trabalhar, que cultura o espaço reforça, que comportamentos queremos incentivar e o que o ambiente devolve para o negócio. Para Thais, inclusão, acessibilidade, bem-estar, flexibilidade, conexão humana e desenvolvimento não são temas paralelos, mas competências de projeto desde o primeiro traço. Nesse novo contexto, Facilities assume o papel de gestor integrado da experiência, conectando RH, arquitetura, tecnologia, operação e estratégia para que o ambiente responda ao verdadeiro choque do futuro, não o tecnológico, mas o humano.

A escassez de mão de obra em Facilities Services é um problema de pessoas ou de estratégia de contratação?
Roberto Talarico, Partner na Bizup Strategy, provocou o público ao deslocar o debate da escassez de mão de obra em Facilities Services de uma explicação simplista, centrada apenas na falta de pessoas, para uma discussão sobre estratégia de contratação, atratividade e modelo de gestão. Segundo sua abordagem, existe escassez de profissionais dentro das condições que o próprio setor ajudou a criar: contratação baseada principalmente em preço, baixa remuneração, pouca perspectiva de carreira, liderança despreparada, alta rotatividade, baixa qualificação e pouco investimento em retenção. Ao mostrar que muitos contratantes ainda priorizam redução de custos e repetem orçamentos do ano anterior, sem KPIs voltados à performance do fornecedor, satisfação e saúde dos colaboradores, Roberto reforçou que o gestor de FM não é apenas vítima da escassez, mas também coautor do modelo de trabalho que sustenta o serviço.

A saída, em sua visão, exige uma mudança coordenada entre contratantes e fornecedores. Do lado dos prestadores, o caminho passa por profissionalização, formação de lideranças, progressão de carreira, mecanização, automação, tecnologia, oferta de IFM e posicionamento como parceiro estratégico. Do lado dos contratantes, envolve rever KPIs, conectar Facilities ao risco, produtividade e continuidade do negócio, remunerar por performance, criar contratos mais sustentáveis, ampliar a parceria com fornecedores e investir em modelos que gerem valor, não apenas menor preço. A mensagem foi que não faltam apenas pessoas; faltam razões para ficar. E a transformação do setor dependerá da capacidade de substituir o ciclo vicioso de baixa relevância, contratação por preço e baixa atratividade por um ciclo virtuoso de inovação, investimento, parceria e contratação por valor.

TRILHA 2 – TECNOLOGIA & INOVAÇÃO

Presidente de mesa: Fernanda Carvalho, Head de Facilities e Real Estate no Mercado Livre, que conduziu as palestras da manhã.

Quando a inteligência artificial gera valor real em FM
Pedro Vasconcellos, Co-Founder da Woba, trouxe ao painel uma visão provocativa sobre a mudança de patamar da inteligência artificial, de uma ferramenta de apoio para sistemas capazes de agir, executar tarefas e reorganizar fluxos inteiros de trabalho. Ao aproximar esse movimento do universo de Facilities, destacou que o valor real da IA não está no encantamento tecnológico, mas na capacidade de transformar uma operação ainda muito manual, baseada em planilhas, chamados e controles fragmentados, em uma gestão mais inteligente, preditiva e estratégica. Para ele, a evolução passa por níveis de maturidade, do uso individual da IA até a criação de uma camada operacional capaz de enxergar dados, espaços, pessoas, energia, manutenção e experiência de forma integrada, liberando o gestor de FM para atuar menos na reação e mais na tomada de decisão.

Sabrina Espinós, Head Facilities e Real Estate na Vestas, reforçou uma leitura bastante pragmática, onde a pergunta central não é mais se as empresas usam IA, mas se conseguem medir resultado concreto com ela. Em sua apresentação, ela mostrou que a inteligência artificial gera valor em FM quando atua sobre problemas reais, como identificação de padrões anormais em equipamentos, priorização de ordens críticas, otimização de energia, leitura de contratos, verificação de SLAs e automação administrativa. Ao mesmo tempo, alertou que nenhuma tecnologia compensa dados ruins, processos frágeis ou falta de governança. Para Sabrina, a IA deve ser copiloto, nunca piloto. Destacou ainda que a força da IA está em ampliar a capacidade analítica do gestor, reduzir custos, riscos e desperdícios, mas sempre preservando o julgamento humano e a autonomia das equipes que conhecem a operação.

Quando o FM vira estratégia com processos inteligentes, AI e ESG e ainda gera savings reais
Douglas Tcharles, Head de Facilities e Manutenção da Diretoria de Suprimentos da Localiza&Co, mostrou como o FM ganha força estratégica quando processos inteligentes, inteligência artificial e ESG deixam de ser discursos paralelos e passam a orientar decisões de negócio. Com 21 anos de experiência em Facilities e atuação na unificação dos serviços de Facilities e Engenharia de Manutenção Predial da companhia, o executivo destacou caminhos concretos para gerar savings reais: otimização de contratos, redução de consumo de energia, água e insumos, manutenção preditiva, automação de chamados e SLAs, uso de dashboards com KPIs claros, benchmarking entre unidades e maior rastreabilidade de custos e performance. Sua abordagem reforçou que o FM contemporâneo não deve ser visto apenas como centro de custo, mas como uma área capaz de influenciar CAPEX, OPEX, experiência do usuário, governança, valorização de ativos e transformação digital, desde que sustentada por tecnologia, dados confiáveis e, sobretudo, por um time preparado para fazer a estratégia acontecer.

Presidente de mesa: Sonia Keiko, CEO da Engemon OP Services, que conduziu os conteúdos à tarde.

Limpeza invisível com robôs, IA e o futuro da higiene predial
Mayara Carvalho, Consultora em Facilities, Operações Sustentáveis & Descarbonização, trouxe uma reflexão importante sobre o futuro da limpeza profissional em um cenário de escassez de mão de obra, alta rotatividade e mudança de perfil das novas gerações. Em sua abordagem, a tecnologia não aparece como substituta das pessoas, mas como instrumento para retirar da operação tarefas repetitivas, reduzir esforço físico e elevar o nível técnico dos profissionais. Ao destacar que drones, robôs e IA exigem operadores preparados, gestores mais qualificados e processos bem desenhados, Mayara reforçou que a limpeza invisível do futuro será menos associada ao esforço manual e mais conectada à inteligência operacional, à sustentabilidade, à segurança e à valorização de quem cuida dos ambientes.

Vitor Silva, Consultor e Gestor em Inovação e Tecnologia e criador do canal @GaleraDoSubsolo, contextualizou a higiene predial a partir de uma leitura cultural: o Brasil aprendeu, por muito tempo, a “lavar” mais do que a limpar tecnicamente. A partir dessa provocação, mostrou como a mecanização, a robótica e a inteligência artificial podem transformar a operação, com redução de consumo de água, menor uso de produtos químicos, ganhos de produtividade, padronização e menor desgaste físico das equipes. Para Vitor, a IA gera valor quando orienta decisões com dados de qualidade, como fluxo de pessoas, qualidade do ar, consumo de água e energia, produtividade, ATP, rotas e necessidades reais de uso. O futuro da higiene predial, portanto, não está apenas em máquinas mais sofisticadas, mas em profissionais mais reconhecidos, preparados e capazes de usar tecnologia para garantir saúde, segurança, bem-estar e sustentabilidade nos espaços.

O analista de FM é a nova profissão dos dados
Rafael Alves, Gerente de Facilities, Gabriel Jesus, responsável por Dados, Inovação e Workplace, e Thiago Monteiro, de Operações de Eventos e Workplace, todos da G4 Educação, apresentaram a evolução da área de Facilities de uma operação reativa e pouco estruturada para um modelo orientado por dados, indicadores e decisões de negócio. A partir da experiência dos palestrantes, que mostraram como a organização de processos, o uso de softwares, dashboards e soluções próprias permitiu transformar informações de manutenção, limpeza, estoque, salas, ocupação, custos e NPS interno em inteligência acionável. A mensagem central foi que o novo profissional de FM precisa ir além da execução operacional: deve registrar bem a realidade, interpretar dados com contexto, comunicar valor e apoiar decisões sobre eficiência financeira, uso dos espaços, fornecedores, permutas e investimentos. O resultado apresentado reforça essa virada estratégica, com savings de R$ 870 mil em 2025 e uma cultura em que decisões sem evidências deixam de ter espaço na conversa.

Como a WEG transformou ativos em inteligência operacional, saindo do FM tradicional para o cognitivo
Tiago Filipi Longhi, Head of Industrial Engineering, André Vicente Lenzi, Gerente de Infraestrutura e Utilidades, e Vinicius Salgado Ribeiro, Técnico de Gestão de Energia, mostraram como a WEG vem transformando sua operação de infraestrutura e utilidades em uma plataforma de inteligência operacional. 

Confira a retrospectiva completa das palestras do Congresso InfraFM na revista digital.


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