CVM revê exigência para relatórios ESG e desloca discussão para a governança corporativa

Mudança na regulamentação da Comissão de Valores Mobiliários retira a obrigatoriedade da divulgação de informações de sustentabilidade a partir de 2026, mas pressão de investidores, financiadores e cadeias globais de valor tende a manter a agenda ESG no centro das estratégias empresariais

Por Redação

CVM revê exigência para relatórios ESG e desloca discussão para a governança corporativa

Foto: Divulgação


Os relatórios de sustentabilidade ganharam protagonismo nos últimos anos à medida que investidores, bancos e grandes empresas passaram a incorporar critérios ambientais, sociais e de governança às suas decisões. A decisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de rever uma das exigências relacionadas a essas divulgações reacendeu uma discussão importante: até que ponto a agenda ESG depende da regulação e quanto dela já passou a ser impulsionada pelo próprio mercado?

A CVM é a autarquia responsável por regular e fiscalizar o mercado de capitais brasileiro. Entre suas atribuições estão definir regras para companhias abertas, proteger investidores e estabelecer padrões de transparência na divulgação de informações ao mercado. Suas decisões influenciam diretamente a forma como empresas listadas na bolsa prestam contas a acionistas e demais participantes do mercado financeiro.

Por meio da Resolução CVM 244, publicada em junho, a autarquia retirou a obrigatoriedade de divulgação do relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, baseado nos padrões do International Sustainability Standards Board (ISSB), que passaria a valer a partir de 2026. Segundo a CVM, a decisão considera as manifestações recebidas durante consulta pública e busca oferecer maior flexibilidade às companhias enquanto o mercado acompanha a consolidação das normas internacionais. A divulgação dessas informações continua permitida, mas deixa de ser obrigatória.

Embora a alteração reduza uma exigência regulatória, ela não elimina a necessidade de produzir informações consistentes sobre sustentabilidade. Bancos, investidores, fundos, clientes e cadeias globais de fornecimento continuam utilizando indicadores ESG para avaliar riscos, acesso a crédito, governança e desempenho das organizações.

A discussão deixa de ser publicar e passa a ser governar
A revisão promovida pela CVM muda o foco da discussão. Em vez de concentrar esforços apenas no cumprimento de uma obrigação regulatória, as empresas tendem a voltar sua atenção para a qualidade dos dados produzidos e para a forma como essas informações são incorporadas aos processos de gestão.

Esse movimento acompanha uma tendência internacional. Em 2023, a Fundação IFRS lançou as normas IFRS S1 e IFRS S2, desenvolvidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), com o objetivo de estabelecer uma base global para divulgação de riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade e ao clima. A proposta vai além da publicação de relatórios e busca integrar essas informações ao processo de tomada de decisão das empresas.

Na prática, o mercado continua demandando dados comparáveis, auditáveis e consistentes, independentemente da obrigatoriedade regulatória adotada em cada país.

Os indicadores continuam nascendo na operação
Grande parte das informações utilizadas em relatórios ESG não é produzida pelas áreas de relações com investidores ou comunicação corporativa. Indicadores relacionados ao consumo de energia, uso da água, geração de resíduos, emissões de carbono, eficiência operacional, manutenção predial, qualidade ambiental, segurança e gestão de fornecedores costumam ser originados nas áreas responsáveis pela operação dos ativos.

Isso significa que a revisão da regra da CVM não reduz a importância da coleta e da gestão desses dados. Sem informações confiáveis, empresas podem encontrar dificuldades para atender exigências de investidores, responder questionários de financiadores, acessar linhas de crédito vinculadas a metas de sustentabilidade ou participar de cadeias globais de fornecimento.

Na prática, boa parte da agenda ESG continua sendo construída diariamente por áreas como facilities, engenharia, operações, manutenção, utilidades, property management e suprimentos.

Mercado financeiro continua pressionando
Mesmo sem obrigatoriedade regulatória, instituições financeiras e investidores seguem ampliando o uso de informações ESG em seus processos de análise. Referências internacionais como a Global Reporting Initiative (GRI), o CDP e o GRESB continuam sendo amplamente utilizados para avaliar desempenho ambiental, riscos climáticos, governança corporativa e qualidade da gestão dos ativos.

Além disso, operações de financiamento sustentável, emissões de títulos verdes e contratos vinculados a indicadores ESG frequentemente exigem métricas auditáveis e acompanhamento contínuo de desempenho. Em outras palavras, a ausência de uma obrigação regulatória não elimina as exigências impostas pelo mercado.

Governança ganha protagonismo
A mudança promovida pela CVM também reforça uma discussão sobre maturidade da agenda ESG. Nos primeiros anos de disseminação do tema, muitas empresas concentraram esforços na publicação dos relatórios. Agora, cresce a percepção de que a credibilidade dessas informações depende da governança que sustenta sua produção.

Isso envolve definição clara de responsabilidades, integração entre áreas, rastreabilidade dos indicadores, processos internos de validação e mecanismos capazes de assegurar qualidade e consistência dos dados divulgados.

Para organizações que administram edifícios corporativos, hospitais, aeroportos, universidades, plantas industriais, centros logísticos ou grandes portfólios imobiliários, essa integração passa necessariamente pelas áreas responsáveis pela infraestrutura e pela operação cotidiana.

O que muda para a gestão dos ativos
A decisão da CVM não altera diretamente a rotina operacional dos empreendimentos, mas reforça a necessidade de estruturar processos internos capazes de produzir informações confiáveis. Consumo energético, emissões, resíduos, eficiência hídrica, desempenho dos sistemas prediais e indicadores relacionados à saúde e segurança continuam sendo informações relevantes para investidores, financiadores e clientes.

À medida que a sustentabilidade deixa de ser tratada apenas como obrigação regulatória e passa a integrar a estratégia dos negócios, cresce também a importância de sistemas de monitoramento, plataformas de gestão de ativos e integração entre operações, engenharia, facilities, property management e governança corporativa.

Uma agenda que vai além da regulação
A revisão promovida pela CVM representa uma mudança regulatória importante, mas não altera o contexto em que as empresas estão inseridas. Investidores continuam avaliando riscos climáticos, bancos seguem vinculando parte do crédito a indicadores de sustentabilidade e cadeias globais de fornecimento ampliam exigências relacionadas à transparência e à governança.

Nesse cenário, a discussão tende a deixar de ser apenas sobre publicar ou não um relatório ESG. O foco passa a estar na capacidade das organizações de produzir dados confiáveis, transformar informações operacionais em indicadores estratégicos e utilizar esses resultados como ferramenta de gestão e tomada de decisão.

Como construímos este material
Esta matéria foi desenvolvida com base na Resolução CVM 244 e na reportagem publicada pelo Seu Dinheiro. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].


Veja mais conteúdos

Conteúdos que gostaríamos de sugerir para a sua leitura.

Líderes de audiência

Mercado

Woba lança agentes de IA para gestão imobiliária corporativa e aposta em nova fase do workplace

Plataforma apresentada durante a Expo InfraFM promete apoiar decisões ligadas a custos, operação e experiência dos colaboradores por meio de inteligência artificial aplicada ao real estate corporativo

Mercado

Congresso InfraFM 2026 começa com imersões em operações de referência

Primeiro dia do Congresso InfraFM foi marcado por visitas técnicas em empresas e operações de diferentes segmentos, proporcionando aos participantes uma visão prática sobre gestão de infraestrutura, manutenção, tecnologia, segurança, sustentabilidade e eficiência operacional

AstraZeneca traduz crescimento, bem-estar e brasilidade em novo escritório em São Paulo

Com 2.300 m² na Torre Jatobá, o novo escritório da AstraZeneca em São Paulo foi projetado para apoiar o modelo híbrido, priorizando colaboração, sustentabilidade, acessibilidade e bem-estar dos colaboradores, com elementos de brasilidade e gestão por

Operações

Perder o prazo do LEED pode adiar certificações estratégicas até 2027

Cronograma do GBCI mostra que projetos que buscam certificação antes da Greenbuild ou até o fim do ano precisam antecipar documentação, pagamento e análise técnica

Sugestões da Redação

Mercado

Real Estate em 2026. O que orienta a escolha entre ocupar, adaptar ou investir?

Relatório da JLL mostra como a redução da oferta de novos empreendimentos valoriza ativos de alta qualidade no mercado imobiliário global

Outside Work

Em 2026, sua casa terá um "CPF". Entenda o que é o Cadastro Imobiliário Brasileiro e como ele afe...

Um novo cadastro nacional vai reorganizar a forma como o Estado enxerga os imóveis no Brasil. A partir de 2026, essa mudança começa a impactar impostos, transações e a gestão patrimonial

Revista InfraFM

Quando saúde mental, liderança e Workplace viram estratégia de negócio

De Harvard a Oxford, passando por CEOs que já transformam lucro em bem-estar: Mind Summit mostra que o futuro das organizações não é sobre espaços para trabalhar, e sim sobre espaços que libertam o melhor das pessoas. Facilities & Workplace entram no centro da estratégia corporativa

Revista InfraFM

O engenheiro que também aprendeu a cuidar de prédios vivos

A arquitetura humana e tecnológica dos campi do Insper integra educação, convivência e networking

Revista InfraFM

O futuro já começou. Quem vai gerenciá-lo?

Projetando a sociedade do futuro para as nossas vidas

Revista InfraFM

Azul por dentro da operação que faz o Brasil voar

Infraestrutura que trata o avião como cliente e formação que sustenta a excelência operacional da companhia aérea