Por Léa Lobo

| Cristina Castilho, fundadora da Studio Conceito |
A trajetória da Studio Conceito, fundada por Cristina Castilho, entra em uma nova fase. Depois de anos atuando em projetos corporativos, obras e retrofit para grandes empresas, a companhia passa a operar como Studio Open, com uma proposta alinhada a uma mudança relevante no mercado de ambientes corporativos, onde passa a tratar o workplace como serviço.
Apresentado por Cristina em entrevista à InfraFM, o modelo parte de uma dor conhecida por gestores de Facilities, Real Estate e Workplace, no qual empresas ainda investem milhões em escritórios alugados, depreciam ativos que não permanecerão com elas e enfrentam retrabalho entre projeto, orçamento, obra, ocupação e desmobilização. A Studio Open nasce para atuar nesse ponto de fricção, conectando arquitetura, engenharia, fundos, construtoras, brokers, landlords e clientes finais em uma lógica de Workplace as a Service.
De escritório de projetos a inteligência operacional
A empresa cresceu em um mercado competitivo, pressionado por preço, margens reduzidas e processos tradicionais de concorrência. Ao longo dos anos, acumulou experiência em projetos corporativos, test fits, obras, retrofit e atendimento a grandes contas.
Essa vivência levou Cristina a reposicionar o negócio. Em vez de seguir disputando obras no modelo convencional, a Studio Open passa a atuar como uma plataforma de inteligência operacional, estruturando soluções sob medida para ambientes de trabalho, com alternativas em CAPEX ou OPEX.
Na prática, a empresa deixa de se posicionar apenas como projetista ou executora e passa a coordenar uma rede de parceiros. Construtoras, fundos de investimento, escritórios de arquitetura, brokers e proprietários de imóveis podem entrar no processo conforme a necessidade do cliente.
Como funciona o Workplace as a Service
No modelo proposto, o cliente não parte necessariamente da compra de uma obra. Ele parte de uma necessidade de ocupação. A partir daí, a Studio Open organiza o processo para entender briefing, cultura da empresa, densidade de ocupação, orçamento, prazo e modelo financeiro mais adequado.
Um dos pontos centrais é acelerar o test fit. Segundo Cristina, processos que tradicionalmente poderiam levar cerca de 30 dias para gerar layout, orçamento e simulações podem ser estruturados em prazo muito menor, com apoio de inteligência artificial e base acumulada de custos e execução.
A proposta é entregar rapidamente uma visão concreta, ou seja, se a empresa cabe no espaço, quanto deverá investir, qual será o impacto mensal e quais alternativas existem entre CAPEX e OPEX. No modelo de assinatura ou locação da obra, o investimento pode ser diluído em contratos de médio ou longo prazo. Em vez de desembolsar todo o valor da implantação no início, a empresa pode contratar o ambiente como serviço, com pagamento previsível ao longo do contrato.
CAPEX, OPEX e o papel de Facilities
Para o gestor de Facilities, a discussão vai além da estrutura financeira. Ela muda a forma como a área participa das decisões de workplace, real estate e operação predial. No modelo tradicional, a empresa aluga uma laje, contrata projeto, abre concorrência para obra, ajusta escopo, executa, ocupa e, ao fim do contrato, arca com custos de desmobilização. Parte do investimento feito em divisórias, luminárias, mobiliário, instalações e acabamentos pode perder valor rapidamente ou ser descartada.
No Workplace as a Service, a lógica é diferente. O ambiente corporativo pode ser estruturado como solução de uso, com previsibilidade de custo, possibilidade de permanência, compra ao final do contrato ou devolução dos ativos conforme as condições negociadas.
Para empresas em crescimento, essa flexibilidade pode ser decisiva. Nem toda organização tem caixa disponível para investir em uma implantação completa, especialmente em imóvel alugado. Transformar parte desse investimento em despesa operacional pode viabilizar escritórios mais adequados sem comprometer capital do core business.
Landlords, vacância e ativos plug and play
O modelo também conversa diretamente com proprietários de imóveis corporativos. Em um mercado em que a vacância ainda desafia edifícios comerciais, oferecer uma laje com solução de ocupação mais estruturada pode aumentar a atratividade do ativo.
Para o landlord, apresentar ao potencial ocupante um pacote mais completo reduz incertezas. Para o ocupante, o processo se torna mais tangível desde o início. Essa lógica pode favorecer estratégias de plug and play, reuso de componentes e melhor aproveitamento dos ativos ao fim dos contratos, reduzindo desperdício e custos de desmobilização.
Sustentabilidade e ciclo de vida do ambiente construído
A proposta dialoga com um tema sensível para Facilities Management, com o desperdício gerado por ciclos curtos de ocupação e reformas sucessivas. Quando uma empresa investe em uma obra completa em imóvel alugado e, anos depois, precisa devolver a laje ou abandonar parte dos ativos instalados, o impacto não é apenas financeiro. Há consumo de materiais, geração de resíduos, descarte de mobiliário, desperdício de luminárias, divisórias e acabamentos, além da logística de desmontagem.
Ao tratar o workplace como serviço, abre-se espaço para pensar em ativos reutilizáveis, contratos mais inteligentes e soluções de ocupação com melhor ciclo de vida. Isso aproxima o modelo das agendas de ESG, eficiência operacional e gestão responsável do ambiente construído.
Liderança feminina e novos debates no corporativo
A transição para Studio Open também vem acompanhada de outro movimento liderado por Cristina, que deseja ampliar o debate sobre o papel das mulheres e de temas humanos no ambiente corporativo.
A fundadora relata ter enfrentado resistência em um mercado de obras e engenharia ainda marcado por barreiras de gênero. Agora, além do novo modelo de negócio, pretende fortalecer conversas sobre neuroarquitetura, bem-estar, acessibilidade, inclusão real, normas regulatórias e tendências de workplace.
Essa pauta é estratégica para Facilities. A área deixou de ser apenas responsável por manter edifícios funcionando. Hoje, precisa articular experiência do usuário, saúde ocupacional, segurança, produtividade, inclusão, sustentabilidade e eficiência dos ativos.
O que isso significa para Facilities Management
Para FM, o movimento sinaliza uma mudança importante, onde o workplace passa a ser tratado como uma plataforma de serviço, não apenas como projeto e obra. Para o diretor comercial da Stido Open, Carlos Alberto de Carvalho, isso exige que o gestor participe mais cedo das decisões de ocupação, antes que o imóvel seja escolhido ou que o projeto esteja fechado. “Sua contribuição é essencial para avaliar custos de operação, manutenção, flexibilidade, riscos de implantação, desmobilização, sustentabilidade e experiência dos usuários”, defende.
Também reforça a necessidade de integrar pessoas, lugares e processos, princípio central da ISO 41001. Um escritório não deve ser analisado apenas pelo layout ou pelo valor da obra, mas pela capacidade de apoiar produtividade, qualidade de vida, continuidade operacional e objetivos da organização.
Na prática, o Workplace as a Service pode ajudar Facilities a reduzir retrabalho entre projeto, orçamento e execução; antecipar custos reais; comparar CAPEX e OPEX; diminuir riscos em imóveis alugados; apoiar decisões de real estate; reduzir desperdício em desmobilizações; e oferecer ambientes mais flexíveis para empresas em transformação.
Uma alternativa ao modelo tradicional
A Studio Open não propõe eliminar os modelos existentes de projeto, obra ou turnkey. A proposta é adicionar uma alternativa para empresas que precisam de mais velocidade, previsibilidade e flexibilidade financeira.
O desafio está em mudar a mentalidade de decisores acostumados a contratar workplace de forma fragmentada: primeiro o imóvel, depois o projeto, depois a concorrência, depois a obra e, por fim, a operação. O Workplace as a Service propõe encurtar esse caminho e integrar as decisões desde o início.
Para o mercado de Facilities, Property e Workplace, a discussão é oportuna. Escritórios continuam sendo redesenhados pelo trabalho híbrido, pela pressão por eficiência, pela busca por melhor experiência dos colaboradores e pela necessidade de reduzir desperdícios.
Por fim, o avanço do modelo conceitual mostra que o futuro do ambiente corporativo pode estar menos na posse dos ativos e mais na inteligência com que eles são planejados, contratados, operados e reaproveitados.