A estética corporativa cansou? O fim dos escritórios “instagramáveis”

Estudos indicam que o escritório deixou de ser vitrine estética e passou a ser cobrado por desempenho, experiência e adaptação ao trabalho híbrido

Por Redação
A estética corporativa cansou? O fim dos escritórios “instagramáveis”

Foto: https://depositphotos.com/br/similar-images/652606362


Durante parte da última década, o desenho dos escritórios corporativos foi capturado por uma lógica de imagem. Ambientes coloridos, lounges com estética de hotel, escadas monumentais e áreas pensadas para circular nas redes sociais passaram a sintetizar a ideia de modernidade. O problema é que a volta parcial aos escritórios, combinada com o trabalho híbrido, mudou a pergunta. O debate deixou de ser sobre qual espaço impressiona mais e passou a ser sobre qual espaço realmente funciona.

Esse deslocamento aparece de forma clara nas pesquisas mais recentes. Dados da CBRE mostram que o espaço dedicado ao trabalho individual de foco vem perdendo participação nos escritórios, passando de 56% em 2021 para 39% em 2024 e chegando a 35% mais recentemente, enquanto cresce a demanda por ambientes voltados a colaboração e usos múltiplos. Ao mesmo tempo, a preferência dos clientes por conceitos exclusivamente voltados a foco recuou de 71% em 2024 para 42%, enquanto os modelos baseados em atividades avançaram de forma consistente. Na prática, isso indica que o layout “bonito e aberto” deixou de responder sozinho às necessidades do trabalho contemporâneo.

Na América Latina, esse movimento ganha uma camada adicional. Pesquisa da JLL mostra que o modelo híbrido já está presente em 72% das empresas, enquanto apenas uma em cada cinco exige presença integral no escritório. O mesmo estudo aponta que 70% das organizações enfrentam desafios ligados ao modelo de trabalho, como baixa ocupação, dificuldade de engajamento e inadequação dos espaços. Quando o escritório deixa de ser obrigatório, ele passa a precisar justificar sua existência.

Esse contexto ajuda a explicar por que a estética corporativa, isoladamente, perdeu força. O problema não é o design, mas a ideia de que o design pode substituir estratégia. O escritório “instagramável” vendia imagem. O escritório que o mercado agora procura precisa entregar desempenho.

O que está mudando de fato
A mudança mais relevante não está na decoração, mas na especialização dos espaços. A Gensler observa que os escritórios passaram a ser desenhados para extremos, com ambientes dedicados tanto à hiperconcentração quanto à colaboração intensa. Se o trabalho individual pode ser realizado em casa, o espaço corporativo precisa oferecer algo que não se replica facilmente fora dele.

A própria Gensler mostra que a demanda por experiência continua alta, mas com outro conteúdo. Em análises recentes do Global Workplace Survey, a parcela de trabalhadores que ainda prefere um modelo tradicional de escritório é minoritária, enquanto cresce a preferência por ambientes mais naturais, flexíveis e diversos, com áreas de foco profundo, espaços silenciosos, ambientes ao ar livre e zonas de convivência com propósito claro.

O mesmo raciocínio aparece quando a análise deixa de ser estética e passa a ser operacional. A CBRE aponta aumento nas metas relacionadas à experiência do usuário no ambiente de trabalho, indicando que empresas começam a medir o escritório não apenas por ocupação, mas por efetividade. Ainda assim, há uma lacuna: muitos afirmam ter escritórios eficazes, mas poucos conseguem medir isso de forma estruturada.

Os casos que ajudam a entender o novo ciclo
No Brasil, um dos exemplos mais emblemáticos dessa transição é o Workplace360 da CBRE em São Paulo. O projeto combina áreas de concentração, espaços colaborativos e ambientes sociais em uma lógica flexível, apoiada por tecnologia e dados de uso. Mais do que um escritório, o espaço funciona como laboratório para entender como as pessoas realmente utilizam o ambiente ao longo do dia.

O ponto central não está na estética, mas na capacidade de adaptação. O ambiente permite diferentes formas de uso, com espaços silenciosos, áreas abertas, salas híbridas e integração com elementos naturais. A experiência não é construída para ser fotografada, mas para sustentar diferentes dinâmicas de trabalho.

No exterior, o escritório da Edelman em Los Angeles, projetado pela Gensler, segue lógica semelhante. O espaço incorpora elementos de hospitalidade e convivência, com um café que se transforma em ambiente social e áreas pensadas para permanência. O conceito se aproxima mais de um clube social do que de um escritório tradicional.

Outro exemplo citado pela Gensler é o da Twitch, também em Los Angeles, que reforça a ideia de especialização dos ambientes. O projeto prioriza zonas distintas de uso, com forte suporte tecnológico para colaboração e integração. Em todos os casos, a estética está presente, mas subordinada à função.

O que os dados indicam sobre o próximo ciclo
Os estudos de CBRE, Gensler e JLL convergem em um ponto: o escritório não perdeu relevância, mas mudou de função. De espaço padronizado para execução contínua, passou a ser um ambiente intencional, com menor densidade fixa e maior diversidade de uso.

Nesse cenário, a pergunta deixa de ser estética e passa a ser estratégica. O escritório precisa oferecer motivo para existir. E esse motivo tende a estar menos na imagem e mais na capacidade de entregar foco, colaboração e experiência de forma integrada.

O fim dos escritórios “instagramáveis”, se ele de fato está em curso, não representa o fim do design. Representa o fim de um tipo específico de design, aquele que operava como solução superficial para problemas que agora exigem profundidade.

Como construímos este material
Esta matéria foi desenvolvida com base em pesquisas e análises da CBRE, Gensler e JLL sobre trabalho híbrido, experiência do usuário e desenho de escritórios, além de estudos de caso nacionais e internacionais. Caso identifique alguma inconsistência ou queira sugerir novas pautas, entre em contato pelo e-mail [email protected].


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